
Santa Casa de Campo Grande. (Foto: Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)
Com salários em atraso há quatro meses, um grupo de médicos da Santa Casa de Campo Grande se desligou da instituição, causando o fechamento de toda a ala de cirurgia cardíaca pediátrica do hospital, que era referência na especialidade em Mato Grosso do Sul. As demissões foram informadas pelo Sinmed (Sindicato dos Médicos) e confirmadas pela própria Santa Casa.
Conforme apurado pela reportagem do Jornal Midiamax, antes dos desligamentos em massa, houve uma conversa de tentativa de acordo com os profissionais das modalidades PJ e CLT, a fim de chegar a uma resolução. Foi informado que apenas os médicos com contrato CLT optaram por continuar com os atendimentos no hospital, mas que outra parte dos profissionais seguiu com a demissão.
Em representação à instituição, a Dra. Izabela Falcão, diretora clínica da Santa Casa de Campo Grande, disse que a saída desses profissionais já havia sido sinalizada devido ao atraso no pagamento de salários e que os desligamentos causariam um grande impacto, deixando a população de Campo Grande e de todo o Estado desassistida. Segundo ela, os órgãos de saúde municipais, estaduais e nacionais serão comunicados sobre o encerramento da ala.
“A Santa Casa é referência nessa especialidade na cirurgia cardíaca pediátrica e, com a saída dessa equipe, haverá o descredenciamento dessa especialidade na instituição. Então, os órgãos competentes serão avisados, como o Ministério da Saúde e os gestores públicos também, tanto municipais quanto estaduais, e o Ministério Público”, diz a diretora em nota.
Para o presidente do Sinmed, Marcelo Santana Silveira, a situação no hospital é agravante e o desligamento desses profissionais deve gerar um considerável impacto na saúde do Estado. Para ele, a maior preocupação, hoje, é o encerramento das cirurgias cardíacas pediátricas.
“Formalmente, o que se desligou foi a equipe da cirurgia pediátrica, com sinal de desligamento da equipe de anestesiologia. Também houve desligamentos na urologia e neurocirurgia, mas o que mais preocupa são as cirurgias cardíacas pediátricas, que são referência estadual. Esse impacto será muito considerável na saúde do nosso estado”, explica o presidente.
Além da falta de pagamento que causou a demissão em massa, a instituição ainda enfrenta outro problema relacionado aos insumos utilizados para os atendimentos e para o cuidado com os pacientes já internados na unidade hospitalar. A diretora técnica explica que a unidade ainda segue com os atendimentos de urgência e emergência, mas que os demais atendimentos, como cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais, estão suspensos devido aos estoques de insumos zerados.
“A única equipe que sinalizou a sua saída foi a equipe de cirurgia cardíaca pediátrica. As demais equipes continuarão atendendo, preocupadas com a população, principalmente com os mais vulneráveis e os pacientes que estão aqui internados. Vale ressaltar que estamos com nossos estoques zerados e os insumos escassos. Nós temos insumos apenas para os pacientes que estão aqui hoje internados na instituição”, diz a Dra. Izabela Falcão.
Ainda segundo o presidente do Sinmed, ao final do mês de julho houve uma comunicação para o público, gestores da Santa Casa e gestão pública em que ficou determinado que a falta de insumos seria resolvida no período de um mês. Por outro lado, conforme o sindicato, o mês de referência para a resolução do problema é o mês de agosto, que encerrou na última segunda-feira (31), e a instituição segue na mesma situação de precariedade.
“No dia 29 de julho houve uma comunicação pela diretora técnica ao público, aos gestores da Santa Casa e aos gestores públicos sobre a suspensão das cirurgias eletivas e também dos atendimentos laboratoriais por questão de insumos, com prazo de resolução de um mês, para que se tomassem medidas e nada foi resolvido. Nós temos outro agravante: não estamos tendo insumos para os atendimentos na urgência e emergência, então estamos numa situação em que esses setores estão em total vulnerabilidade para o atendimento”, finaliza o presidente.
O fechamento da ala, que deve causar grande impacto na saúde de Mato Grosso do Sul, foi questionado aos órgãos citados pela Santa Casa sobre o encerramento dos atendimentos cirúrgicos pediátricos. O Jornal Midiamax procurou pelo CRM (Conselho Regional de Medicina), MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), Ministério da Saúde, Governo de Mato Grosso do Sul e Prefeitura de Campo Grande, mas até o fechamento da reportagem não houve retorno sobre a solicitação. O espaço segue aberto para manifestações e posicionamentos.