Recorde de calor gera alerta para intensificação de incêndios no Pantanal

Correio do Estado

Temperatura em Corumbá ontem chegou aos 43,2°C, uma das maiores já registradas no município – Foto: Rodolfo César

A área queimada em Mato Grosso do Sul neste ano teve aumento de quase 4% no período de janeiro a setembro, na comparação com o mesmo período de 2025. Essa situação acende um alerta, pois o período com temperaturas mais altas chegou com a primavera e os termômetros sinalizaram que a primeira onda de calor dessa estação conseguiu ficar próxima de recordes de anos em que os incêndios causaram grandes danos, principalmente no Pantanal.

A situação sobre a área queimada está detalhada no sistema Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ). Durante os primeiros nove meses de 2025, a área queimada ficou em 178,1 mil hectares, neste ano, o fogo atingiu uma região de 184,8 mil hectares.

Em análise feita pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul, até o dia 17 deste mês, as áreas mais atingidas estavam no Pantanal, enquanto o Cerrado e a Mata Atlântica foram menos atingidos pelas chamas.

Com a intensificação de altas temperaturas a partir do fim deste mês, para que esses números não cresçam ainda mais e danos sejam gerados ao meio ambiente e à saúde pública e tragam risco para a biodiversidade de forma geral, os procedimentos para prevenção, o que envolve uso altamente controlado do fogo em áreas remotas, passa a ser uma obrigatoriedade.

Por decreto, o uso de queimada controlada em MS está suspenso desde o dia 1º de agosto e vai até o dia 31 de dezembro.

Uma das regiões mais críticas para aumentar esse controle sobre o uso do fogo fica no município de Corumbá. Na cidade, a temperatura ontem chegou ao quinto recorde em quase 100 anos de registro (confira no info).

Dentro da área urbana, os termômetros chegaram a 43,2°C, a maior temperatura em Mato Grosso do Sul ontem. Em diversas outras partes do Pantanal, esses registros ficaram acima dos 40°C também.
Na Fazenda São Francisco, no Pantanal do Paiaguás, por exemplo, a temperatura máxima chegou a 42,8°C.

Às 14h, ainda eram registrados 42°C. Com uma temperatura extrema como essa, um conjunto de outros agravantes se soma para criar o cenário que pode propagar o fogo e gerar incêndios. A umidade relativa do ar chegou a 25% na zona rural, com rajadas de vento de até 35 km/h e sensação térmica próxima dos 45ºC.

A combinação de todos esses fatores climáticos é que favorece que qualquer fogo, mesmo que tenha sido iniciado de forma controlada e pequeno, corra o risco de se propagar de forma rápida.

A Defesa Civil de Corumbá, que passou a ter uma sala de situação e está à frente do Comitê Municipal do Fogo em uma das cidades onde mais há registros de incêndios no Brasil, pontuou que o cenário é crítico.

Além das altas temperaturas, ainda há ausência de chuva contínua e a vegetação em várias partes do Pantanal já está seca.

“Neste período, nossa preocupação não é somente acompanhar a temperatura. Nós observamos conjuntamente umidade, vento, ausência de chuva e as condições da vegetação. Quando esses fatores se combinam, qualquer atividade capaz de produzir chama, faísca ou calor pode representar um risco maior de início e propagação de incêndio. Por isso, a principal orientação neste momento é prevenção”, reconheceu o superintendente de Proteção e Defesa Civil de Corumbá, capitão Silvanei Barbosa Coelho.

Apesar da estrutura da Defesa Civil ainda não ser suficiente para atuar diretamente no combate, o superintendente reconheceu que há uma integração entre instituições dentro do Comitê Municipal de Fogo para haver uma mobilização mais efetiva. Uma das respostas para tentar mitigar os riscos maiores envolve a elaboração do projeto para o Plano Municipal de Manejo Integrado do Fogo (PMIF).

Neste ano, ainda vem ocorrendo uma série de treinamentos e ações conjuntas para fortalecer e integrar brigadas comunitárias e privadas no território de Corumbá. Conforme a Defesa Civil, há também um avanço que aprimorou os protocolos de comunicação e acionamento no caso de emergências.

Com essa capilaridade que o comitê tende a gerar, engajando brigadas rurais, instituições mais aparelhadas como Bombeiros e

Prevfogo/Ibama, além de contato direto com o Sindicato Rural de Corumbá, ONGs como o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que mantém brigada permanente na Serra do Amolar, e parceria na Bolívia com a Armada Boliviana, atualmente responsável por ações de combate a incêndios, há uma expectativa de que alertas de prevenção sejam mais eficazes e alcancem áreas remotas.

“O comitê reforça, durante períodos de calor extremo e baixa umidade, a necessidade de maior cautela com queima de resíduos, uso do fogo em propriedades rurais, soldagens, maquinários que possam gerar faíscas, descarte de cigarros e qualquer outra atividade potencialmente capaz de iniciar incêndios. A orientação é para que, diante de qualquer indício de fumaça ou incêndio, a situação seja comunicada imediatamente aos órgãos responsáveis”, informou Coelho.

Em áreas sem telefonia no Pantanal, por exemplo, há o telefone dos Bombeiros para emergências (67) 99987-9539. Outra situação envolve a ampliação da cobertura do monitoramento com uso de IA do sistema Pantera, gerido pelo IHP, em 20%, o que totaliza 2 milhões de hectares cobertos em MS, MT e na Bolívia.

Neste mês, esse monitoramento também passou a ser feito no Território Indígena Guató, na Ilha Ínsua, área mais remota ao norte de Mato Grosso do Sul.

* Saiba
O calor deve continuar hoje na maior parte do Estado, podendo chegar a 42°C na região pantaneira, segundo o Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec-MS). Porém, há possibilidade de chuva em boa parte de MS entre a tarde e a noite de hoje.

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