
Imagens registradas pelo fotógrafo Guilherme Giovanni em 22 de agosto de 2024 e de 2025 mostram a recuperação da vegetação no Morro dos Macacos, às margens da BR-262, em Miranda, um ano após os incêndios que atingiram a região do Pantanal. (Foto: Guilherme Giovanni/ Arquivo).
A vegetação do Pantanal tem grande capacidade de se recuperar depois das queimadas. Plantas rebrotam, arbustos voltam a crescer e a paisagem recupera o verde. Mas essa resistência natural não é suficiente para compensar todo o carbono perdido com os incêndios sucessivos. Ao longo de quatro décadas, o fogo provocou perdas maiores do que os ganhos associados à recuperação da vegetação, revelando um desequilíbrio que nem sempre é percebido quando a paisagem volta a ficar verde.
Uma pesquisa que analisou as mudanças na vegetação de Mato Grosso do Sul entre 1985 e 2024 identificou que, no Pantanal, as perdas acumuladas de carbono atribuídas ao fogo chegaram a 145,7 milhões de toneladas. No mesmo período, os ganhos estimados com a recuperação e as mudanças da vegetação somaram 27 milhões de toneladas.
Os dados fazem parte do estudo “A recuperação da vegetação não consegue compensar as perdas de carbono causadas por incêndios recorrentes em um mosaico de savanas e áreas úmidas tropicais”, publicado em 2026 na revista científica internacional Forest Ecology and Management. O pesquisador Rômullo Oliveira Louzada conduziu o estudo, em colaboração com Diego Campos Vasconcelos, André Nogueira Bozza, João Gabriel Chaib e Renato Maurício Barbosa Tavares. O trabalho teve como base inventários florestais do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) e informações do MapBiomas.
O resultado ajuda a explicar o que acontece quando uma mesma área queima, recupera parte da vegetação e volta a ser atingida pelo fogo, repetindo esse processo durante décadas.
“Ele armazena, mas ele não consegue reter”, resume Louzada, ao explicar que a vegetação acumula carbono durante o crescimento, mas parte dele é novamente perdida nos incêndios.
Depois do fogo – Durante o crescimento, as plantas absorvem gás carbônico da atmosfera e armazenam carbono em troncos, galhos, folhas e outros tecidos. Quando a vegetação queima, parte dessa matéria vegetal é consumida, liberando carbono de volta à atmosfera.
No Pantanal, muitas espécies estão naturalmente adaptadas ao fogo e conseguem rebrotar após as queimadas. Por isso, uma área pode continuar coberta por vegetação mesmo depois de ter sido atingida diversas vezes.
Segundo Louzada, existem locais do Pantanal que queimaram em aproximadamente 20 anos diferentes entre 1985 e 2024. Isso não significa que todo o bioma tenha sido atingido com essa frequência, mas mostra como o fogo pode retornar repetidamente às mesmas áreas.
O pesquisador conta que essa recorrência ajuda a compreender os números da pesquisa. Em 1985, o Pantanal sul-mato-grossense armazenava cerca de 83,1 milhões de toneladas de carbono na vegetação acima do solo. Em 2024, esse volume havia diminuído para 73,4 milhões de toneladas, uma redução de 9,7 milhões.
Entretanto, quando os pesquisadores somaram as perdas estimadas provocadas pelo fogo durante os 40 anos, chegaram a 145,7 milhões de toneladas de carbono.
O levantamento mostra que os dois números representam situações diferentes. A redução de 9,7 milhões de toneladas corresponde à comparação entre os estoques estimados no início e no fim do período. Já os 145,7 milhões representam as perdas acumuladas ao longo das quatro décadas, inclusive em áreas que queimaram, recuperaram parte da vegetação e voltaram a ser atingidas.
No mesmo intervalo, os ganhos associados à recuperação e às mudanças da vegetação foram estimados em 27 milhões de toneladas. A diferença entre essas duas parcelas ficou negativa em 118,7 milhões de toneladas de carbono.
Esse balanço acumulado não deve ser confundido com a redução do estoque entre 1985 e 2024, pois são indicadores distintos. As perdas atribuídas ao fogo também não representam uma medição direta de todo o carbono emitido para a atmosfera.
Recuperar o verde – Apesar das perdas identificadas, Louzada ressalta que a pesquisa não permite concluir que a vegetação pantaneira esteja perdendo definitivamente sua capacidade de regeneração. Ele explica que o Pantanal é um ambiente naturalmente adaptado à ocorrência do fogo. O que ainda precisa ser investigado são os efeitos dos incêndios repetidos e de grande intensidade sobre a estrutura da vegetação.
“Não sabemos ainda o impacto cumulativo na estrutura dessa vegetação”, afirma.
Segundo ele, uma área pode voltar a ficar verde e continuar sendo classificada pelos satélites como o mesmo tipo de vegetação, sem necessariamente recuperar a composição de espécies, o porte das plantas ou a estrutura que possuía antes do incêndio.
“Por mais que o Pantanal tenha esse efeito maravilhoso de se reerguer, não necessariamente essa é a mesma estrutura que tinha antes do fogo”, observa.
A dinâmica das águas também precisa ser considerada. Louzada explica que as mudanças nos períodos de cheia e seca interferem diretamente na vegetação pantaneira. Áreas classificadas como úmidas ou campestres podem apresentar características diferentes conforme o regime de inundação e o momento em que são observadas.
Por isso, alterações identificadas nos mapas não podem ser atribuídas exclusivamente aos incêndios. A redução das inundações, por exemplo, também pode favorecer o avanço de arbustos e outras plantas lenhosas sobre áreas anteriormente dominadas por vegetação campestre.
O pesquisador ressalta que os efeitos do fogo ainda alcançam a fauna. Louzada lembra que os grandes incêndios de 2020 provocaram elevada mortalidade de animais, especialmente entre espécies com menor capacidade de deslocamento, como alguns répteis. A pesquisa, porém, não mediu diretamente os impactos sobre a biodiversidade nem sobre o carbono armazenado nas raízes e no solo. A análise concentrou-se na vegetação acima do solo.
Mapa mostra a frequência das queimadas em Mato Grosso do Sul entre 1985 e 2024. As áreas em vermelho indicam os locais atingidos pelo fogo em mais anos, com destaque para regiões do Pantanal. Fonte: Louzada e colaboradores (2026), com dados do MapBiomas. (Foto: Reprodução)
Manejo do fogo – Para Louzada, os resultados reforçam a importância do manejo integrado do fogo, que combina prevenção, monitoramento, combate aos incêndios e uso planejado de queimadas em condições adequadas para reduzir o risco de eventos de grande intensidade.
O pesquisador destaca que Mato Grosso do Sul vem incorporando conhecimentos tradicionais, inclusive de povos indígenas, às técnicas de manejo e às ações de prevenção.
Outra possibilidade apontada pelo estudo é ampliar a recuperação de áreas degradadas. Com as informações produzidas, torna-se possível estimar quanto carbono diferentes formações vegetais podem armazenar à medida que se regeneram, contribuindo para orientar projetos de restauração e políticas ambientais.
“Se algo vai ser restaurado, eu tenho uma ideia de quanto aquilo vai contribuir para a mitigação climática”, afirma.