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Quando começou a estudar agropecuária, Wallison Sérgio de Souza Rosa tinha uma ideia bastante simples sobre o trabalho no campo. Para ele, plantar significava basicamente colocar uma semente na terra, regar e esperar. Três anos de formação técnica foram suficientes para mostrar que havia muito mais por trás daquela paisagem.
“Eu achava que o agro era só cuidar de uma planta, colocar na terra e regar. Mas não é só isso. Você precisa entender o que quer plantar, como fazer, o tipo e a forma de cultivar”, conta o estudante, de 17 anos.
A mudança não ficou apenas na maneira de enxergar a agricultura. Durante o curso, Wallison descobriu também uma área profissional que não fazia parte de seus planos: a zootecnia.
O estudante participa do Itinerário Formativo Profissional de Agropecuária da Escola Estadual Professora Clarinda Mendes de Aquino, desenvolvido em parceria entre a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul e a Acrissul, em Campo Grande. A formação combina conteúdo técnico com experiências práticas e contato com diferentes cadeias produtivas.
Foi nesse ambiente que a afinidade de Wallison com os animais ganhou outro significado.
“Desde criança eu sempre gostei de animais. No começo, achava que era só cuidar, mas tem várias coisas. É preciso ter uma alimentação boa e tratar os animais da melhor forma possível”, relata. Entre plantações, hortaliças e atividades práticas, ele passou a enxergar aquele aprendizado como uma possibilidade concreta de futuro.
A experiência do estudante ajuda a mostrar, na escala de uma sala de aula, uma estratégia que o Governo de Mato Grosso do Sul vem tentando ampliar para todo o Estado: aproximar a formação escolar das transformações econômicas que estão criando novas ocupações em setores como celulose, bioenergia, tecnologia, logística, agroindústria e serviços.
Em 2025, a educação profissional estava presente nos 79 municípios sul-mato-grossenses. Segundo o governador Eduardo Riedel, candidato do PP à reeleição, o Estado chegou a 41 mil estudantes matriculados nessa modalidade, com investimentos superiores a R$ 100 milhões.
Cerca de 45% dos alunos do Ensino Médio cursavam itinerários relacionados à formação técnica e profissional, percentual próximo da meta estadual de 50%.
A expansão permite que jovens tenham contato com uma profissão ainda durante a Educação Básica. Mas traz também uma questão que vai além do número de matrículas: quantos desses estudantes concluem a formação e conseguem transformar o conhecimento adquirido em trabalho e renda?
No caso de Wallison, a experiência já produziu uma escolha.
O curso de agropecuária contempla áreas como agricultura, produção animal, florestas, agroindústria, qualidade de produtos de origem animal e administração. Ao conhecer esse universo, o estudante decidiu continuar os estudos.
“Quero fazer uma faculdade, viver na área e ser zootecnista. Quero trabalhar com isso por amor, não só pelo dinheiro”, afirma.
Segundo o coordenador do curso técnico, professor Guilherme Cavalcanti, essa mudança de perspectiva ocorre também com outros estudantes.
“Vemos crescer o interesse tanto em seguir para a universidade quanto em se formar e já buscar uma oportunidade profissional”, explica.
Para ele, a proximidade com a atividade prática ajuda os alunos a compreender como funciona o setor em que poderão trabalhar. “Os alunos têm uma vivência muito boa e conseguem acompanhar como está o mercado de trabalho, a economia e o desenvolvimento no dia a dia do campo.”
É justamente essa conexão que o Estado tenta reproduzir em diferentes regiões.
A lógica é que a formação profissional acompanhe as características econômicas de cada município. Uma cidade marcada pela expansão industrial tem necessidades diferentes de outra cuja economia esteja mais relacionada ao turismo, à agricultura, à fronteira ou aos serviços.
Entre as áreas apontadas como promissoras estão tecnologia da informação, logística, comércio exterior, meio ambiente, energias renováveis, ciência de dados, inteligência artificial, biotecnologia e gestão. Setores tradicionais como saúde, administração, manutenção, construção, comércio e transporte também continuam demandando trabalhadores.
A tentativa de aproximar escola e mercado ocorre em um momento de expansão econômica de Mato Grosso do Sul.
O Estado tem criado novos postos de trabalho formal, com destaque para construção e indústria. Paralelamente, ação estadual conduzida pelo Senai e Senac projetou 88 turmas para qualificar 1.420 trabalhadores em 27 municípios.
A abertura de vagas, porém, não elimina um problema recorrente: empresas relatam dificuldade para encontrar trabalhadores com a formação necessária.
Segundo o economista Thiago Segóvia, a carência aparece especialmente em setores como construção civil, indústria, logística, tecnologia, transporte e agronegócio.
“Há escassez principalmente de profissionais técnicos. As empresas buscam formação específica, experiência prática, domínio de ferramentas digitais, capacidade de adaptação e resolução de problemas”, afirma.
A questão tende a ganhar peso à medida que novos investimentos chegam ao Estado. Somente na cadeia da celulose, os investimentos privados anunciados podem superar R$ 70 bilhões até 2028, ampliando a necessidade de mão de obra em atividades florestais, industriais, logísticas e de serviços.
O desafio para o poder público é fazer com que os empregos mais qualificados gerados por esse processo também sejam acessíveis aos moradores das próprias cidades onde os investimentos se instalam. Sem formação suficiente, parte dessas vagas pode acabar ocupada por profissionais vindos de outras regiões, enquanto trabalhadores locais permanecem concentrados em ocupações de menor renda.
Outro passo dessa estratégia é tentar evitar que a formação termine com um curso isolado.
Instituído em 2025 e regulamentado em 2026, o Programa de Verticalização da Educação Profissional, o ProVert, pretende criar uma trajetória entre o Ensino Médio técnico e a graduação tecnológica.
Pelo modelo, o estudante poderá cumprir três qualificações profissionais durante o Ensino Médio e depois continuar os estudos em um curso superior relacionado à mesma área. O percurso completo terá carga mínima de 1,8 mil horas, sendo pelo menos mil horas correspondentes às qualificações realizadas durante a Educação Básica.
Em março de 2026, a Secretaria de Estado de Educação abriu o credenciamento de instituições públicas e privadas de Ensino Superior interessadas em participar.
O programa, contudo, ainda está em implantação. Seu alcance dependerá da quantidade de turmas abertas, dos cursos oferecidos, da distribuição pelas diferentes regiões e, sobretudo, da capacidade de manter os estudantes no percurso até a conclusão.
Para jovens como Wallison, essa possibilidade significa transformar uma descoberta feita ainda na escola em um caminho de formação mais longo.
A política estadual procura aproximar os estudantes do ambiente de trabalho por outro caminho: o Programa de Aprendizagem Profissional, destinado a jovens matriculados em itinerários técnicos e profissionais.
A iniciativa combina teoria e prática e atende prioritariamente pessoas entre 14 e 24 anos. Para estudantes com deficiência, não existe limite máximo de idade.
A proposta ataca uma dificuldade conhecida de quem busca a primeira oportunidade: empresas pedem experiência justamente de jovens que ainda não tiveram a chance de trabalhar.
Assim como ocorre com os cursos técnicos, porém, a efetividade dessa política não pode ser medida apenas pelo número de participantes. Um dos indicadores decisivos será saber quantos concluem o programa e quantos efetivamente conseguem uma contratação depois da experiência.
A aproximação entre escola e mercado também exige equilíbrio.
Formar trabalhadores para setores em expansão não significa transformar a escola exclusivamente em fornecedora de mão de obra para empresas. Além da habilitação profissional, a Educação Básica continua tendo a função de desenvolver conhecimento científico, formação humana e cidadania.
Isso se torna ainda mais importante em uma economia na qual máquinas, sistemas e ocupações mudam rapidamente. Uma habilidade técnica aprendida hoje pode precisar ser atualizada poucos anos depois.
Para Riedel, a formação precisa permitir não apenas o ingresso no primeiro emprego, mas também que o jovem tenha condições de mudar de função, continuar estudando, empreender ou construir uma carreira.
A estratégia procura, assim, aproximar duas políticas públicas que nem sempre caminharam juntas: a atração de investimentos e a preparação das pessoas que vivem no Estado.
Infraestrutura, incentivos e novos empreendimentos podem gerar empregos. Mas o impacto social será menor se a população local não tiver qualificação para ocupar as oportunidades mais bem remuneradas.
A chegada da educação profissional aos 79 municípios e a presença de 41 mil estudantes nos cursos em 2025 mostram uma mudança de escala. Quase metade dos alunos do Ensino Médio já estava vinculada a itinerários profissionais, enquanto o Estado começava a implantar um programa para conectar essa formação ao Ensino Superior.
O próximo desafio é medir a qualidade desse avanço.
Quantos estudantes terminam os cursos? Quantos encontram trabalho? Quantos conseguem atuar na área em que foram formados? E quais municípios oferecem cursos técnicos completos, em vez de apenas qualificações de curta duração?
São perguntas importantes porque, para o jovem, a política pública só completa seu percurso quando a matrícula se transforma em conhecimento, oportunidade profissional e liberdade de escolha.
No caso de Wallison, esse caminho já começou a ganhar forma.
O estudante que entrou no curso sem imaginar uma carreira no agronegócio agora fala em universidade e zootecnia. Entre os animais, as plantações e as atividades práticas que passaram a fazer parte de sua formação, ele encontrou mais do que uma disciplina escolar: encontrou uma possibilidade de futuro.
A experiência individual ainda não responde aos desafios de todo o sistema de educação profissional de Mato Grosso do Sul. Mas ajuda a mostrar o que está em jogo. Novas indústrias podem ser erguidas em poucos anos. Preparar uma geração para participar das mais tempo — e continuidade.