O intestino é um segundo cérebro, diz médica de Harvard

CNN

Tratar o intestino como um órgão neurológico ativo é uma mudança de perspectiva com consequências reais para a saúde • CrisNYCa/Wikimedia Commons

Embora o sistema nervoso entérico — a rede de neurônios que governa o trato gastrointestinal — seja descrito na anatomia clássica há mais de um século, muita gente continua acreditando até hoje que o intestino não passa de um “encanamento”, uma espécie de tubo passivo de transporte de comida.

Em uma entrevista recente à Harvard Medicine, revista oficial da Faculdade de Medicina da famosa universidade americana, a professora e autora Trisha Pasricha explica que essa rede de nervos do intestino afeta o humor, a imunidade, a produção de neurotransmissores e pode até ser o local de origem de doenças como o Parkinson.

No seu livro You’ve Been Pooping All Wrong — “Você tem feito cocô do jeito errado” em tradução livre — a neurogastroenterologista parte de uma constatação clínica da American Gastroenterological Association (AGA): 40% dos americanos tiveram que interromper atividades cotidianas em 2022 por problemas intestinais.

Parte desses sintomas, afirma a pesquisadora, é agravada ou perpetuada por comportamentos incorretos — postura no vaso, ignorar o impulso de evacuar, dieta pobre em fibras, uso do celular no banheiro, abuso de adoçantes artificiais, entre outros. A outra parte do problema é a desinformação e o silêncio.

Ou seja, esses sintomas sérios — que têm causa orgânica ou funcional real — muitas vezes não são reportados ao médico por vergonha ou tabu. Segundo os dados da AGA, um em cada três americanos só discutiria sintomas intestinais se o médico perguntasse primeiro, o que atrasa o diagnóstico e o tratamento.

O nervo que conecta tudo

“Tudo o que você faz — sejam os seus pensamentos, seu humor, o que você come — todas essas coisas terão um grande impacto no seu intestino. E, como consequência, isso vai influenciar todos os outros aspectos da sua saúde”, afirma Pasricha em sua entrevista.

Essa bidirecionalidade da comunicação intestino-cérebro via nervo vago, um consenso estabelecido nas últimas décadas, explica por que estados emocionais afetam tão diretamente o sistema digestivo — e vice-versa. Não é por acaso que sentimos a necessidade urgente de ir ao banheiro antes de uma apresentação, ou temos prisão de ventre durante períodos de estresse.

Tudo isso é resultado de uma ligação real: anatômica, elétrica e hormonal. Em seu laboratório em Boston, a equipe de Pasricha identificou que muitos pacientes com doença de Parkinson relatavam histórico anterior de úlceras. A pesquisa mostrou que lesões gastrointestinais antigas estavam associadas a um risco 76% maior de desenvolver a doença.

A hipótese mais aceita hoje sobre a origem intestinal do Parkinson é que a proteína alfa-sinucleína sofre uma alteração (mal dobramento) no trato gastrointestinal, e se propaga pelo nervo vago até o cérebro. No entanto, o que desencadeia essa dobra ainda é desconhecido, e demanda novos estudos.

Tratando o intestino como um cérebro

Pasricha afirma que o papel do intestino tem sido subestimado na saúde e no bem-estar geral. Por isso, um dos objetivos do seu livro é promover uma completa reconfiguração do olhar. “O que eu coloco no meu corpo terá consequências imediatas neste cérebro tão delicado e sensível”, sugere.

A reconfiguração que a neurogastroenterologista propõe é concreta: tratar o intestino como um cérebro — “que é como eu penso no meu intestino e como eu o trato”, diz. Por isso, recomenda tratar cada refeição, cada estado emocional, cada hábito como algo que repercute em um órgão neurológico ativo.

O intestino merece, portanto, o mesmo cuidado dispensado ao sistema nervoso central: ele recebe sinais do que comemos e sentimos — e responde influenciando humor, metabolismo e saúde de forma ampla. Não por acaso, sintomas intestinais e estados emocionais tendem a se espelhar: a fisiologia é compartilhada.

Partindo dessa premissa, o livro You’ve Been Pooping All Wrong oferece orientações práticas — sobre fibra alimentar, postura, hábitos e microbioma — baseadas em evidências clínicas. Lançada nos Estados Unidos pela Penguin Random House, a obra ainda não tem tradução prevista para o Brasil.

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