
Donald Trump e Volodymyr Zelensky em Washington • Alexander Drago/Reuters
A série de anúncios feitos pelo presidente Donald Trump nos últimos dias fez crescer muito o temor na Ucrânia de que os Estados Unidos possam abandonar o país à própria sorte na guerra contra a Rússia.
As medidas foram anunciadas em sequência, depois de uma longa conversa telefônica entre Trump e o líder russo, Vladimir Putin, na última sexta-feira (9).
Em apenas três dias, o chefe de Estado dos EUA suspendeu temporariamente as sanções para permitir a compra de diesel russo pelo governo norte-americano, atacou publicamente o presidente Volodymyr Zelensky, sugerindo que o país deveria ter um “novo líder”, e anunciou, por conta própria, um suposto “cessar-fogo energético”.
Tudo isso sem que houvesse qualquer discussão ou entendimento prévio com o governo ucraniano.
Mais do que as declarações públicas de Trump, no entanto, o que realmente preocupa a Ucrânia são ameaças privadas de interrupção de ajuda militar.
Segundo várias fontes ouvidas pela CNN, a Casa Branca ameaçou suspender o compartilhamento de informações de inteligência e a venda de armamentos à Ucrânia, inclusive por meio dos parceiros europeus, caso o país não abandone a sua estratégia de atacar refinarias e outros ativos ligados à indústria do petróleo na Rússia.
Sem essa ajuda militar, os ucranianos teriam pouca chance de continuar resistindo por muito tempo aos ataques russos.
O grande temor na capital ucraniana, Kiev, é que os movimentos de Trump já sejam indícios claros de uma virada estratégica na política norte-americana.
Em vez de pressionar Moscou a encerrar a invasão ilegal da Ucrânia, como quer Kiev, Washington começou a fazer concessões à Rússia e pode aumentar as exigências sobre os próprios ucranianos.
A mudança de postura da Casa Branca ficou clara depois da ligação entre Trump e Putin, que durou uma hora e meia, segundo o Kremlin.
Moscou afirma que o líder russo recusou retomar as negociações de paz e disse que a guerra continuará até que todos os objetivos russos sejam alcançados.
Logo depois, aparentemente sem exigir qualquer concessão do Kremlin, Trump anunciou que os dois haviam chegado a um acordo para suspender as sanções ao diesel russo.
Pelo entendimento, a Rússia enviará 300 mil toneladas de diesel ao mercado global, com outras 500 mil prometidas para novembro.
Ao negociar com Putin, Trump está de olho nas Midterms, as Eleições de Meio de Mandato dos Estados Unidos, e nos efeitos negativos sobre a economia mundial de outro conflito: a guerra contra o Irã.
Os embarques de combustível pelo Estreito de Ormuz são hoje uma fração do que eram antes do conflito, e as exportações de diesel do Golfo caíram para cerca de um quarto do volume normal.
O preço do diesel está batendo recordes e pressionando a inflação nos Estados Unidos, a menos de um mês das eleições legislativas, que podem dar o controle do Congresso ao Partido Democrata, de oposição a Trump.
Para tentar evitar uma grande derrota eleitoral, o presidente dos EUA mostra que está disposto a reduzir a proteção oferecida aos ucranianos.
Zelensky reagiu afirmando que o acordo do diesel era um presente a Putin, que retribuiria com mais ataques contra a Ucrânia.
Trump não gostou das declarações. Em uma entrevista, demonstrou irritação e afirmou que os ucranianos deveriam eleger outro líder, disposto a chegar a um acordo com Putin.
Em Kiev, há também o temor de que o presidente norte-americano tente transformar a Ucrânia em bode expiatório caso surjam problemas na execução do acordo do diesel.
Isso porque os ucranianos vêm intensificando os bombardeios contra refinarias de petróleo russas, numa tentativa de sufocar a economia do inimigo, fortemente dependente das exportações de energia.
É justamente para tentar proteger essas instalações que Trump busca impor um “cessar-fogo energético” entre os dois países.
Não há detalhes sobre os termos desse suposto acordo, mas a Ucrânia não foi consultada previamente.
A Rússia permanece em silêncio. Existe, porém, a possibilidade de que o assunto tenha sido discutido durante a conversa telefônica e de que Putin tenha exigido de Trump uma interrupção dos ataques ucranianos às refinarias russas.
Mas, para Kiev, a ameaça mais grave é mesmo a de suspensão da ajuda militar norte-americana.
Segundo a imprensa europeia, os Estados Unidos estariam ameaçando interromper o compartilhamento de informações de inteligência e o programa PURL, pelo qual os países europeus financiam a compra de armamentos americanos destinados à Ucrânia.
Uma das consequências mais graves seria a redução do fornecimento de mísseis interceptadores Patriot, que já estão em falta no arsenal ucraniano.
Se os Estados Unidos suspenderem o envio de armas e informações de inteligência, a Ucrânia ficará ainda mais dependente da Europa, que talvez não consiga sustentar sozinha um esforço de guerra prolongado.
Com isso, a capacidade de defesa ucraniana seria seriamente comprometida. No cenário mais grave, o resultado poderia ser uma vitória militar da Rússia e a incorporação definitiva dos territórios ucranianos ocupados por Moscou.