Alimentos sobem mais de 20 vezes a inflação da Capital

Alimentos sobem mais de 20 vezes a inflação da Capital – Foto: arquivo

O preço de alguns alimentos disparou em Campo Grande e chegou a subir mais de 20 vezes a inflação acumulada no ano.

Enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) da Capital registra alta de 3,79% de janeiro a agosto, produtos como cebola e repolho acumulam aumentos superiores a 80%.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram uma pressão bastante desigual dentro da cesta de consumo. A cebola acumula alta de 81,60%, o equivalente a 21,5 vezes a inflação geral, enquanto o repolho subiu 80,74%, ou 21,3 vezes o IPCA.

Outros alimentos também apresentam aumentos muito acima do índice geral. A melancia acumula alta de 36,82%, quase 9,7 vezes a inflação, enquanto o feijão-carioca subiu 28,73%, 7,6 vezes o índice. O levantamento considera a variação acumulada no ano até agosto.

A disparidade fica evidente mesmo entre produtos que fazem parte do mesmo grupo. O grupo alimentação e bebidas acumula alta de 3,36%, abaixo do índice geral de Campo Grande, de 3,79%. No entanto, alguns itens registram reajustes muito superiores à média.

Entre os produtos com aumentos acima da inflação estão ainda o leite longa-vida, com alta de 13,19%, o queijo, com 12,54%, o iogurte e bebidas lácteas, com 12,24%, além da batata-inglesa, que acumula alta de 12,06%.

Nas carnes, o avanço também supera o IPCA em diversos cortes. O músculo registra alta de 11,60%, a paleta, de 12,60%, a capa de filé, de 12,01%, e a costela, de 8,57%. O grupo carnes acumula alta de 8,23%, mais que o dobro da inflação da Capital.

Mensal
O comportamento registrado em agosto mostra como os preços dos alimentos podem oscilar significativamente. Apesar das fortes altas acumuladas ao longo do ano, alguns produtos tiveram quedas expressivas no mês.

A batata-inglesa caiu 20,33% em agosto, enquanto a cebola recuou 12,44%, o feijão-carioca teve queda de 10,12% e o tomate ficou 8,48% mais barato. Mesmo assim, os produtos continuam apresentando alta significativa no acumulado do ano.

No caso da cebola, por exemplo, a redução registrada em agosto ainda não foi suficiente para reverter a forte valorização acumulada anteriormente.

A dinâmica ajuda a explicar por que a inflação oficial e a percepção de aumento dos preços no supermercado podem apresentar diferenças. O IPCA mede uma cesta ampla de produtos e serviços, enquanto o impacto no orçamento de cada família depende dos itens consumidos com maior frequência.

Em agosto, o IPCA de Campo Grande registrou deflação de 0,20%, após ficar estável em julho. Mesmo com a queda do índice geral, cinco dos nove grupos pesquisados tiveram aumento. Alimentação e bebidas avançou 0,09% no mês, com alta de 0,63% na alimentação no domicílio.

Entre os principais aumentos registrados no mês estiveram a melancia (14,39%), a mandioca (5,35%), a banana-d’água (4,37%), as carnes (1,57%) e hortaliças e verduras (1,30%). Na outra ponta, batata, cebola, feijão e tomate contribuíram para conter a inflação de alimentos.

Segundo pesquisa da Serasa Experian em agosto deste ano, 53% dos trabalhadores brasileiros chegam ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas. Entre eles, 78% apontam a alimentação como um dos gastos que mais comprometem a renda, à frente de despesas como água, luz e gás, citadas por 72%.

Mais do que mostrar que comer ficou caro, os números ajudam a entender uma dificuldade que aparece no orçamento doméstico: quando a renda é limitada, não existe a possibilidade de simplesmente eliminar a alimentação da lista de despesas.

Para a cofundadora da Bem Educação e especialista em comportamento financeiro, Ana Leoni, é justamente nesse ponto que a educação financeira deixa de ser uma questão de matemática e passa a envolver comportamento.

“Dietas financeiras com planos de ação eficazes trazem certo resultado a curto prazo, sem dúvida. O problema é que nunca são sustentáveis por muito tempo”.

A comparação com as dietas ajuda a explicar um comportamento comum quando as contas apertam. A pessoa percebe que gastou mais do que deveria e tenta compensar fazendo cortes radicais. O problema é que uma estratégia baseada apenas em restrições tende a ser difícil de manter.

Próstata Saudável
“Faz mais sentido construir hábitos mais duradouros. Em vez de focar em restrições ou mudanças drásticas, fazer escolhas que promovem o bem-estar geral e são sustentáveis a longo prazo é muito mais saudável”, afirma Ana.

Alimentos podem ficar mais caros com El Niño
A trajetória dos alimentos pode ganhar um novo fator de pressão nos próximos meses com a previsão de um El Niño de intensidade forte ou muito forte entre o fim deste ano e o início de 2027.

Conforme já publicado pelo Correio do Estado, a previsão da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa) aponta 63% de probabilidade de o fenômeno alcançar essa intensidade entre novembro e janeiro, período considerado crítico para o plantio e o desenvolvimento das lavouras de verão.

Para o governo estadual, o principal risco está na imprevisibilidade provocada pelo fenômeno. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Artur Falcette, alterações no padrão climático podem dificultar o planejamento dos produtores.

“É importante ressaltar que o principal efeito do El Niño dessa intensidade é a imprevisibilidade que ele causa. Então, a gente tem em Mato Grosso do Sul, normalmente, uma estação de seca e cheia bem definida, um calendário agrícola que varia pouco”, disse ao Correio do Estado.

O secretário também destacou que o Estado já registrou neste ano episódios considerados fora do padrão esperado.

“A gente teve uma onda de calor recentemente depois de uma semana de muito frio e agora chuva. Faz mais de 10 anos que não chovia na última semana de agosto no nosso Estado. Então, esse tipo de ocorrência de eventos que não estão dentro da nossa previsão climática atrapalha muito o planejamento da agricultura”, afirma.

Além da irregularidade das chuvas, Falcette aponta risco de ondas de calor durante a primavera e o verão e possibilidade de escassez hídrica.

“A gente tem uma alta probabilidade de grandes ondas de calor durante a primavera e o verão e a possibilidade de escassez hídrica, uma vez que a tendência, uma das coisas que esse fenômeno causa, são as chuvas esparsas. Então, a gente deixa de ter aquela chuva uniforme que atende ao Estado inteiro e a gente passa a ter chuvas mais pontuais”, explica.

Embora o fenômeno climático esteja no radar, a ocorrência de El Niño, isoladamente, não permite prever o comportamento das lavouras.

Para o consumidor, porém, eventuais perdas de oferta podem chegar rapidamente ao supermercado, especialmente em produtos mais perecíveis.

Hortaliças, frutas, arroz e feijão tendem a responder mais rapidamente a alterações na produção. Leite e carne também podem sofrer efeitos indiretos caso mudanças climáticas prejudiquem pastagens ou elevem os custos da alimentação animal.

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