
Super-El Niño deve encarecer ainda mais os alimentos – Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado
O avanço de um possível super-El Niño pode agravar ainda mais o peso dos alimentos no orçamento das famílias brasileiras e pressionar uma inflação que já dá sinais de aceleração.
Em Campo Grande, itens básicos como batata, cebola, tomate e feijão acumulam altas expressivas este ano e especialistas fazem alerta que um fenômeno climático extremo pode reduzir a oferta de produtos sensíveis às variações do tempo, elevando ainda mais os preços nos supermercados.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) confirmou o desenvolvimento de um novo evento de El Niño e atribuiu alta probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte, caracterizando um chamado super-El Niño.
O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico altera os padrões climáticos em diversas regiões do planeta, favorecendo secas, ondas de calor, queimadas e chuvas intensas que podem comprometer a produção agrícola.
Em Campo Grande, o cenário já preocupa. Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, a batata-inglesa acumula alta de 101,43%, a cebola de 91,69%, o tomate de 77,76% e o feijão-carioca de 55,12%. Hortaliças e verduras subiram 22,05%, o leite longa vida 12,77%, os ovos 11,31% e as carnes 7,38%.
O economista Eduardo Matos faz alerta para o potencial do fenômeno climático de reduzir a oferta de produtos sensíveis às oscilações do tempo e ampliar uma inflação que já pesa no bolso dos consumidores.
Para Matos, o El Niño tradicional já costuma provocar impactos em algumas culturas agrícolas, mas um super-El Niño representa um risco ainda maior.
“O El Niño, por si só, já pode impactar determinadas culturas, principalmente aquelas que são mais frágeis às oscilações climáticas. Agora, o super-El Niño é um fenômeno pouco registrado na história moderna da humanidade e esse, sim, tem poderes devastadores”, afirma ao Correio do Estado.
Segundo o economista, estudos que relacionam os eventos climáticos com a produção agrícola indicam que os principais produtos de exportação do País não devem sofrer grandes perdas, mas a situação é diferente para alimentos presentes diariamente na mesa dos brasileiros.
“Existe uma pesquisa bastante interessante que correlacionou as ocorrências de super-El Niño com a produção de determinadas culturas e identificou que milho, soja e até mesmo cana-de-açúcar não tiveram grandes impactos. Agora, café, verduras, arroz, batata e outros alimentos apresentaram perdas significativas, justamente produtos que têm maior peso no consumo da população”, explica.
CONSUMIDOR
Na avaliação dele, isso significa que o consumidor pode sentir mais rapidamente os efeitos do fenômeno do que propriamente o setor exportador do agronegócio.
“Soja, milho e cana têm um papel importante na geração de divisas para o Brasil e também na produção de proteína animal, mas quem pesa diretamente no carrinho de compras são os alimentos do dia a dia. O brasileiro certamente sentirá os impactos do super-El Niño caso ele se confirme, principalmente em hortifrútis, pão, arroz e até mesmo feijão”, destaca.
A preocupação também é compartilhada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A assessora técnica da entidade, Danyella Bomfim, afirma que os reflexos no bolso da população devem aparecer com maior intensidade nas próximas safras.
“O El Niño pode influenciar os preços dos alimentos mais no início do ano que vem. O impacto no bolso não vai ser imediato. Vem como resposta a essa menor oferta na safra seguinte. Os produtos que mais podem ser afetados são os mais perecíveis: hortaliças, frutas, arroz, feijão, leite e carne”, ressaltou ao UOL.
Especialistas apontam que fenômenos climáticos extremos costumam afetar primeiro a produção de hortaliças, frutas e legumes, culturas de ciclo curto e altamente dependentes das condições meteorológicas. A redução da oferta acaba refletindo rapidamente nas feiras e nos supermercados.
Além disso, efeitos indiretos também podem atingir leite, carnes e derivados, seja pela dificuldade na produção de pastagens, seja pelo aumento dos custos de alimentação animal e logística.