
Gado deixado na Fazenda Vai Quem Quer está magro e quase sem alimento, segundo denúncia – Foto: Reprodução Whatsapp Correio do Estado.
Cerca de 600 bovinos estão vivendo em situação de abandono na Fazenda Vai Quem Quer, em Corumbá, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Parte dos animais estaria confinada em uma área de apenas 24 hectares, onde enfrenta falta de água e alimento em razão da superlotação e da estiagem na região.
A propriedade passou oficialmente para o nome do pecuarista Ricardo Pereira Cavassa no dia 24 de junho, após deixar de pertencer a Vilmar Silveira. No entanto, segundo o novo proprietário, um grande rebanho pertencente ao antigo dono permaneceu na fazenda.
Ricardo afirma que solicitou a retirada dos animais e chegou a firmar um acordo com Vilmar, no dia 16 de julho, para que o gado fosse removido em até 30 dias. O prazo terminou sem que os animais fossem retirados.
Segundo o proprietário, um funcionário de Vilmar teria informado que o antigo dono somente buscaria o rebanho mediante uma ordem judicial.
De acordo com boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, 420 bovinos estão confinados em uma área de 24 hectares, em condições consideradas críticas.
O documento aponta que os animais sofrem com severas restrições de alimento e água devido à superlotação e às condições climáticas, já que a região enfrenta o período de seca.
Ricardo também afirma ter identificado animais sem marcação, com marcas borradas ou com marcas pertencentes a propriedades vizinhas.
Durante uma vistoria e a verificação das cercas que dividem a propriedade, foram encontrados animais que, segundo o proprietário, podem pertencer a fazendas vizinhas.
Em uma contagem realizada pelo pecuarista, 43 dos 420 animais não seriam de Vilmar, mas de propriedades como Santa Fé do Rosário, Santa Helena, Dona Arminda e Fazenda Baía do Mondego.
Além dos 420 bovinos confinados, Ricardo afirma que outras 200 cabeças pertencentes a Vilmar permanecem em uma área de invernada da propriedade.
Com isso, o número de animais que permanecem na Fazenda Vai Quem Quer chega a aproximadamente 600 bovinos.
Diante da situação, Ricardo afirma ter acionado a Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal), a Polícia Militar Ambiental (PMA), a Polícia Militar Rural e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Segundo ele, porém, nenhuma medida efetiva havia sido tomada até o momento.
“É só eles tirarem o gado da minha propriedade, passar a cerca e colocar na propriedade dele. Eu não posso fazer isso porque é crime, aí eu tenho que aguentar o gado dele dentro da minha propriedade”, lamentou.
O pecuarista também demonstrou preocupação com a condição dos animais e afirmou que parte do rebanho em situação de extrema magreza pode não resistir por muito tempo caso permaneça nas mesmas condições.
A Fazenda Vai Quem Quer ficou conhecida por estar no centro de uma disputa judicial relacionada à Operação Ultima Ratio, deflagrada pela Polícia Federal em outubro de 2024.
A operação investigou suspeitas envolvendo venda de decisões judiciais no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. A fazenda, com aproximadamente 5,9 mil hectares e avaliada em R$ 15 milhões, apareceu nas investigações relacionadas a uma disputa envolvendo Ricardo Cavassa e um casal acusado de aplicar um golpe na negociação da propriedade.
Segundo informações da investigação, mensagens encontradas no celular do desembargador Sideni Soncini Pimentel indicaram possíveis articulações envolvendo também os desembargadores Alexandre Bastos e Vladimir Abreu em processos relacionados à propriedade.
A disputa judicial envolveu a negociação da fazenda com o casal Lydio de Souza Rodrigues e Neiva Rodrigues Torres. As terras oferecidas como parte do negócio, localizadas em Iguape (SP), apresentariam, segundo a acusação, pendências como penhoras, multas ambientais e áreas embargadas.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) denunciou o casal por estelionato relacionado à negociação.
Em junho deste ano, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou, por unanimidade, um acórdão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul relacionado à disputa. Após a decisão, a Fazenda Vai Quem Quer passou oficialmente para o nome de Ricardo Pereira Cavassa.
Agora, além da disputa judicial que marcou a propriedade nos últimos anos, o novo proprietário enfrenta o problema do rebanho deixado pelo antigo dono e cobra uma solução para a retirada dos animais.