As recompensas do Pantanal, entre onças-pintadas e o poder da regeneração

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Daniela Filomeno no refúgio ecológico Caiman, no Pantanal, um dos símbolos de preservação e turismo do bioma • CNN Viagem & Gastronomia

Antes de ser apenas uma viagem, o Pantanal é um exercício de aprendizado. O bioma nos obriga a desacelerar, a esperar e a observar, mexendo com nossos sentidos, com nossos anseios e até com as nossas prioridades. Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera pela Unesco, o Pantanal tem um enorme poder de transformação.

Já estive algumas vezes no Pantanal como jornalista, mas, em minha viagem mais recente, tive a alegria de compartilhar a experiência com meus filhos. Mais uma vez, o destino provou por que nunca deixa de me surpreender. Ao redor do mundo, certos lugares nos enfeitiçam pelos cenários, pelos hotéis ou pela gastronomia, às vezes tudo junto e misturado. O Pantanal vai além: nos encanta ao mostrar que a natureza é regida pela própria dinâmica e ritmo.

Mais do que conhecimento, devemos ter sabedoria para respeitar esse processo. E como diz Roberto Klabin, fundador do refúgio ecológico Caiman, Pantanal, o turismo é a chave para a conservação do bioma.

Em 2024, cerca de 80% da fazenda onde fica o projeto, na cidade de Miranda (MS), foi devastada pelos incêndios que assolaram a região. Com muitos esforços, sempre com o equilíbrio da mãe-natureza em mente, a recuperação das áreas machucadas e das espécies está em curso.

Alguns marcos recentes ajudaram a dar o empurrão necessário. Em setembro do ano passado, o Caiman foi premiado na categoria Conservação (Green Guardian) no PURE Awards pelo projeto de regeneração da fauna e flora pantaneira após os incêndios. Além disso, o refúgio comemorou 40 anos em 2025.

Novidades do refúgio ecológico

O local ocupa o que já foi uma estância inglesa. O projeto de manejo sustentável foi iniciado em 1985, quando Roberto entendeu que a pecuária extensiva poderia ser integrada à natureza em campos de pastagem naturais e artificiais. Dos 53 mil hectares — maior que a área de Belo Horizonte —, 5.600 são uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), o que garante a preservação perpétua do bioma.

Localizado no Mato Grosso do Sul, a cerca de 236 km do aeroporto de Campo Grande e a 182 km de Bonito, o Caiman pode ser acessado tanto por via terrestre quanto em avião particular.

Uma das inspirações para a criação foi o Delta do Okavango, no Botsuana, um dos ecossistemas mais preservados da África. O destino adotou uma estratégia de turismo de baixo impacto e alto valor, com número limitado de visitantes, lodges integrados à paisagem e receitas revertidas para a proteção ambiental e para as comunidades locais.

Hoje, a RPPN da Caiman integra o IMARK (Instituto Maria Ângela e Roberto Klabin), projeto que reúne cerca de 18 mil hectares e engloba a área mais preservada da fazenda. É nesse território que se concentram iniciativas voltadas à preservação do bioma, como programas de refaunação, pesquisas científicas e estudos dedicados à conservação da biodiversidade pantaneira.

Recém-reformada, a Casa Caiman é a pousada principal e conta com 18 suítes, funcionando como um lodge. Há também duas villas privativas: a Baiazinha, com seis suítes, e a Cordilheira, novidade mais do que bem-vinda. Fui uma das primeiras a ficar hospedada na nova acomodação, ideal para grupos, com sete bangalôs independentes, todos com piscina privativa, deque, bar, sala de TV e espaços dedicados ao bem-estar.

Construída diante de uma área de mata de cordilheira, formação característica do Pantanal em que a vegetação mais alta emerge como uma espécie de ilha verde em meio à planície alagável, a Cordilheira tem uma arquitetura que dialoga com a paisagem, privilegiando estruturas suspensas, materiais naturais e uma integração quase orgânica com o entorno.

No geral, a experiência no Caiman é altamente personalizada. Guias e veículos exclusivos nos acompanham em atividades como safáris, trilhas, canoagem e focagem noturna, proporcionando uma imersão profunda no ritmo do Pantanal, com conforto e privacidade em meio a um dos cenários mais extraordinários do mundo.

A dança das épocas

Aqui, a recompensa não está na pressa, nem na extensa lista de atrações para riscarmos. Está no silêncio, no encontro com o inesperado e na beleza que surge quando reverenciamos a natureza. Considero o Pantanal um templo do ecoturismo único no mundo.

Maior planície alagável contínua do planeta, o bioma é moldado pela água. As cheias e as secas determinam os caminhos, a paisagem, a vegetação, os sons e os encontros entre predadores e presas.

Existe o Pantanal da cheia (de janeiro a março), quando a água transforma tudo em espelhos infinitos. Existe o da vazante (abril a junho), quando as águas começam a recuar e os animais voltam a ocupar os campos. Existe o da seca (julho a setembro), que oferece lindos horizontes e uma alta concentração de fauna. E existe o das chuvas (outubro a dezembro), quando tudo renasce de maneira exuberante.

As estações também impactam a maneira como vivemos o destino, desde como os animais se comportam até o que devemos levar na mala. É essa dança entre abundância e escassez que faz do bioma um dos melhores lugares do planeta para observação de fauna e flora.

Minha viagem mais recente aconteceu durante a vazante, um período particularmente bonito. Conforme as águas baixam, a vida reaparece: grupos de queixadas atravessam os campos, cervos-do-pantanal caminham entre áreas ainda alagadas, e macacos-prego aparecem nas copas das árvores.

Cultura pantaneira e conservação

É impossível falar do Pantanal sem falar de sua gente: tão rica quanto sua biodiversidade é a sua cultura. A vida pantaneira nasceu do isolamento das fazendas e da convivência com os ciclos das águas, o que moldou um modo de vida marcado pelo ritmo mais lento, pela hospitalidade e por um conhecimento próximo da terra e dos animais.

Aqui, encontramos influências indígenas, paraguaias, bolivianas, dos antigos peões e dos tropeiros, cujas referências aparecem na música, nas festas e, principalmente, na mesa. O quebra-torto, café da manhã típico pantaneiro, é quase uma celebração, com pratos bastante reforçados.

A chipa, feita de queijo e polvilho, lembra um pão de queijo mais firme em formato de meia-lua. O arroz carreteiro nasceu das longas viagens dos tropeiros e se tornou símbolo da comida de fazenda. O caldo de piranha, associado à energia e à força, é um clássico regional. Há ainda o pacu na brasa, peixe mais emblemático da região, e a sopa paraguaia, que não é exatamente uma sopa, mas sim um bolo de milho salgado, receita que reflete a mistura de culturas que moldou essa parte do Brasil.

Até a carne de jacaré, proveniente de criadouros legalizados, faz parte dessa relação entre homem e natureza. À noite, durante um jantar pantaneiro, percebemos mais uma vez que a gastronomia atravessa memória e identidade.

Entre uma refeição e outra, as experiências ganham vida. A estadia no Caiman ajuda a financiar projetos fundamentais para a conservação do bioma, como o Onçafari, o Instituto Arara Azul e iniciativas ligadas à comunidade local.

Os safáris em rangers atravessam estradas e áreas off-road, nos revelando paisagens que parecem saídas de documentários. O Pantanal possui seus próprios “big five”, uma referência aos safáris africanos: onça-pintadacervo-do-pantanalantatamanduá-bandeira e capivara formam o grupo. Limitar-se a eles, porém, seria injusto. O tuiuiú, símbolo da região e maior ave voadora do Brasil, também é o centro das atenções, assim como as araras-azuis, os jacarés e os pores do sol refletidos na água.

Na canoagem ao entardecer, o silêncio é quase uma experiência espiritual, em que o som da água, dos pássaros e do vento é o que mais importa naquele momento. Já a focagem noturna nos dá um outro gostinho do Pantanal. Em carros adaptados, o safári usa holofotes e lanternas potentes para procurar o brilho dos olhos dos animais, nos permitindo observar espécies de hábitos noturnos.

Porém, um dos momentos mais emocionantes da viagem aconteceu com o projeto Onçafari. Criada para proteger a onça-pintada, a iniciativa nasceu com a premissa de mostrar que uma onça viva vale mais do que qualquer lógica baseada na caça. Por meio de monitoramento, pesquisa científica, educação ambiental e turismo responsável, o projeto ajudou a transformar a relação das comunidades com o maior felino das Américas.

Para alguns, as onças podem ser sinônimo de ameaça. No Pantanal, aprendemos que elas são significado de vida, representando um ecossistema saudável e que, de uma maneira ou de outra, podemos coexistir. Durante uma de nossas saídas, uma onça-pintada veio até nós. Com o veículo parado, ela passou pertinho do grupo, de forma serena, deixando todos hipnotizados.

A mesma sensação de admiração me acompanhou junto ao Instituto Arara Azul, que desenvolve projetos como o Projeto Arara Azul, que tem no Caiman uma de suas bases de pesquisa. Os resultados são notáveis: em décadas passadas, a arara-azul-grande esteve ameaçada. Graças ao trabalho contínuo de monitoramento dos ninhos, recuperação de habitats e pesquisa científica, a população da espécie voltou a crescer, tornando-se um exemplo mundial de como conservação e desenvolvimento caminham juntos.

As recompensas do Pantanal

Depois da viagem, que durou apenas quatro dias, voltei para São Paulo com alguns pensamentos. Um deles diz respeito à conexão com o território por meio das pessoas. Uma vez no Pantanal, eu naturalmente queria que meus filhos vissem as onças, os rios, a fauna e as paisagens que fazem parte do bioma.

Mas, ao chegarmos em casa, as lembranças que eles carregavam foram outras. Eles falavam do guia que nos acompanhou, do pesquisador que explicou todo o trabalho de conservação e do peão pantaneiro que contou histórias da vida na fazenda, longe dos grandes centros com que estamos acostumados. Ou seja, eles lembravam das pessoas por trás da paisagem, que deixaram uma marca positiva na jornada.

Além desse impacto, o poder de regeneração do Pantanal me fisgou. Vivemos em um planeta que, infelizmente, sofre com mudanças climáticas radicais e com a perda de biodiversidade. Após os dolorosos incêndios na região em 2024, voltar ao Caiman foi constatar que regenerar é possível, mas não acontece do dia para a noite. O processo exige ativos valiosos que temos perdido hoje em dia: tempo, cuidado e sabedoria.

Além de um lugar onde vemos animais extraordinários e contemplamos paisagens de ficar na memória, relembrei que o Pantanal é uma experiência de transformação constante. O recado é claro: a vida não é linear. Ela é feita de cheias e vazantes e de períodos de abundância e de escassez. Digo e repito: viagens são um investimento para ampliar a nossa visão de mundo. Basta estarmos abertos a essa troca.

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