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Entre seca e contaminação, água vira o maior alerta ambiental para 2026 em MS

Por Redação

Em 5 de janeiro de 2026

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Vista aérea do Pantanal de Mato Grosso do Sul (Foto: SOS Pantanal/Divulgação).

Rios em níveis críticos, qualidade da água ameaçada por poluição e agrotóxicos, além de um Pantanal cada vez mais seco, pressionado pelas mudanças climáticas e pelo uso intensivo do território. Esse cenário preocupante colocou os recursos hídricos em alerta vermelho em Mato Grosso do Sul e no foco do ano que começa agora.

Ao longo de 2025, o Campo Grande News publicou uma série de reportagens que revelaram a gravidade da situação. O Pantanal, por exemplo, perdeu 61% do seu espelho d’água em relação à média histórica, conforme dados do MapBiomas. A reportagem Pantanal perdeu área natural maior que duas Campo Grande em 40 anos mostra que a redução das áreas alagadas no Pantanal ocorre de forma contínua e se intensificou na última década. Entre 2009 e 2024, apenas 2022 ficou acima da média histórica, enquanto oito dos últimos dez anos figuram entre os mais secos de toda a série iniciada em 1985.

Em 2024, a planície alagável registrou somente 366 mil hectares cobertos por água, o que corresponde a 2% da superfície hídrica nacional, consolidando o Pantanal como o bioma com a menor área alagada do Brasil. De acordo com o MapBiomas Água, a combinação entre a dinâmica de ocupação e uso da terra no Brasil e a intensificação de eventos climáticos extremos, associados ao aquecimento global, tem contribuído para o avanço do processo de secagem do país.

Esse cenário resulta de profundas transformações no território, impulsionadas sobretudo pela construção de grandes reservatórios para geração de energia e pela expansão da agricultura irrigada, que impactam de forma crítica regiões estratégicas, como a bacia do Alto Paraguai, onde estão as nascentes do Pantanal.

O diagnóstico também ecoa na fala de quem acompanha o bioma de perto. O coronel Ângelo Rabelo, presidente do IHP (Instituto do Homem Pantaneiro), afirma que “o Pantanal já chegou a ter aproximadamente 1,5 milhão de hectares de áreas alagadas e hoje conta com menos de 500 mil hectares”, classificando a redução como alarmante.

Proteger as nascentes – Segundo Rabelo, a diminuição das áreas inundadas compromete processos ecológicos essenciais e a oferta de recursos naturais, além de abrir espaço para a expansão da pecuária em áreas antes alagáveis. “É um alerta grave para um bioma que depende diretamente da água para manter seu equilíbrio ambiental”, afirma.

Para ele, o caminho passa por investimento e planejamento. “Nós temos que aumentar nossos esforços com relação à proteção de nascentes e, de uma forma geral, para todos os recursos hídricos, que são fundamentais não só para a questão humana, mas para lazer e geração de emprego”, defende, ao lembrar que a água deve ser tratada como ativo biológico estratégico.

Níveis dos rios – A ausência de cheias regulares impacta diretamente o Pantanal. A reportagem Rio Paraguai tem seca histórica e rompe padrão de cheias desde 2019 mostra que desde a última grande cheia, em 2018, o bioma enfrenta o aumento dos períodos de estiagem. Ao longo de 2025, houve seca prolongada nas bacias dos rios Paraguai e Paraná. Dados do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mostram que, desde 2019, a combinação de chuvas e vazões abaixo da média, somada à distribuição irregular das precipitações, tem impedido a recuperação dos rios e reservatórios.

A bacia do rio Paraguai permaneceu 18 meses consecutivos, entre fevereiro de 2024 e julho de 2025, em seca excepcional, o nível mais grave do índice que mede chuva e vazão, com registros de seca hidrológica extrema no Pantanal, em Ladário e Porto Murtinho, além da ausência de cheias expressivas nos últimos anos.

Na bacia do rio Paraná, o cenário também é crítico. No baixo Paraná, onde está a hidrelétrica de Itaipu, foi caracterizada seca hidrológica extrema, com recordes de vazões mínimas em 2024 e volumes persistentemente abaixo da média desde janeiro de 2025. Em Porto Primavera, a seca foi moderada, porém contínua desde 2014.

Segundo o Cemaden, chuvas concentradas em curtos períodos reduzem a recarga dos aquíferos, enquanto mudanças no regime climático, no uso do solo e intervenções humanas agravam a escassez hídrica no Estado.

Contaminação – A ameaça aos recursos hídricos, no entanto, não se resume à escassez, mas também à qualidade da água. A reportagem Poluição contamina rios do Pantanal e já reflete na saúde da população apresenta a pesquisa da SOS Pantanal que apontou contaminação de rios da planície pantaneira, com presença de poluentes que afetam tanto os ecossistemas quanto a saúde de comunidades ribeirinhas.

Relatório do projeto Águas que Falam apontou a presença de nitrato e fosfato em níveis elevados, além de baixa oxigenação e alta turbidez nos rios. Moradores relataram odor forte, espuma e sedimentos na água, associados ao aumento de casos de diarreia, doenças de pele, problemas gastrointestinais e pedras nos rins.

Segundo a bióloga Daniella França, coordenadora de Programas de Conservação da SOS Pantanal, todas as comunidades pesquisadas vivem em situação de vulnerabilidade socioambiental e não dispõem de saneamento básico. Isso leva parte da população a consumir água diretamente dos rios ou recorrer a poços e caminhões-pipa, mesmo diante da contaminação visível.

As análises indicam que, embora a maioria dos parâmetros esteja dentro dos padrões ambientais, há desvios significativos nos níveis de oxigênio dissolvido, nitrato e fosfato. Segundo o relatório, os dados apontam influência de fertilizantes agrícolas, dejetos humanos, desmatamento e assoreamento, agravando o desequilíbrio ambiental e os riscos à saúde da população ribeirinha.

Em Bonito, cartão-postal do ecoturismo nacional, o alerta também veio da água. Uma investigação mostrou contaminação por agrotóxicos em corpos d’água da região, acendendo um sinal de perigo justamente onde a transparência dos rios é o principal ativo econômico. O contraste entre a imagem de paraíso natural e os resultados das análises reforçou o debate sobre os limites da expansão agrícola no entorno das nascentes.

Fim do Pantanal – A reportagem Pantanal caminha para o fim, com 97% de terras privadas e 82% menos água aponta que o bioma atravessa uma grave crise ambiental, marcada pela concentração fundiária e pela perda acelerada de água. Atualmente, 97% do território está sob domínio privado, enquanto os corpos d’água encolheram 82% nas últimas quatro décadas. Pesquisa da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) indica que as queimadas não são eventos naturais, mas resultado direto da expansão da pecuária capitalista e da estrutura fundiária concentrada.

Dados do estudo mostram que, entre 1985 e 2023, as áreas de pastagem quadruplicaram no bioma, acompanhadas por um crescimento de mais de 40% no rebanho bovino. Em 2024, cerca de 95% dos focos de incêndio foram registrados em propriedades privadas, com indícios de ações criminosas. Especialistas alertam que, caso esse modelo de ocupação e uso do território seja mantido, o bioma corre o risco de desaparecer até 2070.

Campo Grande News

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