
A água chega transparente ao copo. Não tem cheiro, não tem gosto e não indica perigo. Ainda assim, pode carregar um contaminante silencioso e persistente, amplamente utilizado na agricultura brasileira. Invisível a olho nu, o herbicida atrazina infiltra-se no solo, alcança rios, poços, sistemas de abastecimento urbano e até a chuva, expondo populações inteiras a um risco contínuo.
“A atrazina é um dos principais contaminantes de água que a gente tem hoje”, afirma o professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Sebastião Ferreira de Lima, doutor em Produção Vegetal. Especialista em herbicidas e controle de plantas daninhas, ele reconhece a eficiência agronômica do produto. “Ela funciona bem, tem bom resultado e é barata. Esses são os pontos positivos. E acabou por aí.”
Segundo o pesquisador, o problema começa quando a molécula deixa o campo e alcança os recursos hídricos. Aplicada no solo, a atrazina pode se degradar em um período relativamente curto, dependendo das condições ambientais. “No solo, ela pode se degradar de 20 dias até seis meses”, explica.
Persistência na água – O comportamento muda quando o herbicida é carregado pela chuva ou se infiltra até atingir rios, poços e reservatórios. “Quando ela chega à água, ela perdura por muito mais tempo”, afirma.
De acordo com o professor, mesmo sem novas fontes de contaminação, o processo natural de recuperação pode levar até 60 anos. Isso transforma a atrazina em um passivo ambiental de longo prazo.
A substância passa a circular por toda a bacia hidrográfica. “As áreas de milho se conectam a outras regiões por meio dos rios. Não é por causa de milho no Pantanal que a água chega contaminada lá, é por causa das águas que vêm de áreas agrícolas”, diz, lembrando que a atrazina é usada principalmente nessa cultura.
Exposição contínua – O risco, segundo ele, não está apenas na presença pontual do produto, mas na exposição contínua e cumulativa. “As pessoas se contaminam sem saber. Você acha que está se hidratando e está tomando um veneninho ali”, afirma.
Ferver a água não resolve. “Ela é uma molécula química. Isso não quebra a molécula. Ou você usa reações químicas complexas ou microrganismos específicos para degradar.”
Esse segundo caminho, chamado de biorremediação, ainda está em fase experimental. O pesquisador explica que a técnica vem sendo estudada em ambiente controlado e pode se tornar uma alternativa no futuro. Ele pretende iniciar testes na região de Chapadão do Sul, onde atua.
Riscos à saúde – Do ponto de vista da saúde, “já é comprovado que ela tem efeitos carcinogênicos, ou seja, ela pode levar à formação de câncer”, afirma o professor, ponderando que isso não significa que todos os expostos adoecerão. “Ela aumenta o risco. Um pouquinho hoje, mais um pouquinho amanhã, isso vai acumulando.”
Estudos científicos apontam que a atrazina está associada a efeitos graves e irreversíveis à saúde, incluindo alterações hormonais, problemas reprodutivos, prejuízos neurológicos motores, cognitivos e comportamentais, redução da função imunológica e potencial cancerígeno.
Contaminação comprovada – Em Chapadão do Sul, segundo ele, a contaminação é generalizada. “Aqui, todas as águas estão contaminadas. Nenhuma serve como água ‘limpa’ para análise, porque todas têm atrazina.”
A conexão entre os rios faz com que o problema se espalhe. “Os rios estão conectados. Tudo o que entra em um ponto vai chegar a outro.”
Ação na Justiça – Diante desse cenário, o Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul ajuizou uma Ação Civil Pública contra 29 empresas do setor agroquímico e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), apontando a poluição do solo e dos recursos hídricos da Bacia do Alto Paraguai pelo uso massivo e persistente da atrazina. A região engloba o Pantanal, uma das mais importantes bacias hidrográficas da América do Sul.
A ação se baseia em estudos científicos, incluindo uma pesquisa de campo realizada em 2018 pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), com participação de universidades e órgãos públicos. O levantamento analisou águas superficiais, subterrâneas, de abastecimento urbano e até da chuva. A atrazina foi encontrada em 15 dos 25 pontos analisados.
Embora os níveis estejam dentro dos limites permitidos no Brasil, superam parâmetros internacionais mais rigorosos.
Em novembro, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública de R$ 300 milhões contra 20 empresas do setor agroquímico e o Ibama, por danos ambientais relacionados à contaminação do Rio Dourados. O processo cita estudo da Embrapa que encontrou atrazina em todas as 117 amostras coletadas em 2021 na bacia do rio e contesta a existência de “uso seguro” do produto, proibido na Europa e amplamente comercializado no Estado.
Para o MPF, o discurso do “uso seguro” não se sustenta diante dos dados científicos, principalmente quando envolve comunidades ribeirinhas que dependem diretamente da água para consumo e subsistência. Entre os pedidos estão a suspensão da venda do produto, o monitoramento ambiental e a reparação dos danos já causados.
Legislação – Banida na União Europeia desde 2003, a atrazina segue presente nos cursos de água de Mato Grosso do Sul, como indicam pesquisas realizadas no Estado.
“Na União Europeia, essa molécula é proibida. A gente não pode exportar nada para lá que tenha traço de atrazina”, lembra o professor da UFMS. Para o pesquisador, a manutenção do uso está ligada a fatores econômicos. “Vende muito, dá muito retorno. Enquanto a pressão não for grande, vai continuar.”
Segundo Sebastião Ferreira de Lima, alternativas existem e o uso da atrazina já vem diminuindo em algumas regiões. “Hoje há outros produtos e sistemas de manejo. O problema não é falta de opção, é decisão.” Para ele, a questão não é se a atrazina será proibida, mas quando. “Esse produto já deveria ter sido proibido,” conclui.
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