COP

Frete de MS para os portos fica 8% mais caro no início deste ano

Por Redação

Em 3 de março de 2026

0 Compart.
Aumento pode ser ainda maior nos próximos meses – Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

Depois de dezembro de 2025 ter sido um mês atípico, com aumento nas exportações, mas estabilidade nos preços do frete, o mercado logístico de Mato Grosso do Sul entrou em janeiro em ritmo de alta: as cotações subiram, em média, 7% nas principais rotas rumo aos portos.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita ainda deve inflacionar os preços ao longo de todo o primeiro trimestre deste ano.

Dados da Conab apontam aumento em todos os principais destinos de escoamento do Estado. Transportar grãos de Dourados para Paranaguá (PR), saltou de R$ 208 por tonelada em dezembro de 2025, para R$ 230 em janeiro deste ano, representando um aumento de 10,6%.

O transporte de grãos para Rio Grande (RS) subiu de R$ 250 por tonelada no ano passado, para R$ 289 em janeiro, um encarecimento de 15,6%.

O destino de Maringá (PR) foi o que apresentou aumento mais moderado. De R$ 112 por toneladas em dezembro de 2025 foi para R$ 120 em janeiro, um aumento de 7,14%.

O trecho a partir do município de São Gabriel do Oeste foi de R$ 128 por toneladas no fim do ano passado, para R$ 130, representando apenas 1,5%.

Para o porto de Santos (SP) o aumento entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano representou 4,4%, saltando de R$ 295 por tonelada no ano passado, para R$ 308 no início deste ano. O aumento médio entre os trechos foi de R$ 16,80 nos preços, média de 8,30%.

Conforme o boletim logístico da Conab, Mato Grosso do Sul passou por um momento atípico no volume das transportações.

“O mercado de fretes em Mato Grosso do Sul registrou um volume de transporte acima do que normalmente ocorre para o período. Isso aconteceu principalmente por causa do aumento nas exportações de milho e pela manutenção de volumes elevados de soja. Tradicionalmente, dezembro costuma ser um mês mais fraco na logística agrícola, porque marca o encerramento do ano comercial e a transição entre safras. Em 2025, porém, o comportamento foi diferente”, é detalhado no documento.

A Conab ainda cita na nota técnica que o câmbio foi um dos fatores que ajudaram a manter o ritmo das exportações.

“O ambiente externo em dezembro [de 2025] foi marcado por um câmbio em níveis competitivos – com cotação média do dólar em R$ 5,49 – levemente ajustado em relação a novembro [de 2025]. Essa dinâmica favoreceu a competitividade das commodities brasileiras no mercado internacional e sustentou o ritmo de escoamento da produção”, é explicado.

No boletim também é explicado que, apesar do volume significativo, os preços do frete não dispararam em Mato Grosso do Sul, na comparação com novembro do ano passado.

“Apesar dos elevados volumes transportados para o período, a análise dos preços dos fretes, quando comparados aos de novembro [de 2025], mostra que o mercado operou de forma relativamente equilibrada. As cotações apresentaram predominância de estabilidade, com ajustes pontuais de alta em algumas rotas de média e longa distância, especialmente aquelas voltadas aos corredores de exportação”, continua a explicação no boletim.

Um dos motivos para essa estabilidade foi a maior disponibilidade de caminhões no fim do ano, algo comum nesse período. Com mais oferta de veículos, o mercado manteve um equilíbrio entre oferta e demanda, o que limitou aumentos mais expressivos nas cotações.

“A maior disponibilidade de veículos no período – característica recorrente do encerramento do ano – contribuiu para conter pressões altistas mais intensas, mesmo diante da demanda firme. Nas rotas de curta distância e no mercado interno, os preços mantiveram-se competitivos, sustentados pela continuidade do abastecimento de agroindústrias locais e regionais. Esse cenário reforça que, embora o volume transportado tenha crescido de forma significativa, o equilíbrio entre oferta e demanda de transporte limitou variações mais acentuadas nas cotações”, finaliza a explicação da nota técnica.

Na mesma linha, o presidente do Sindicato dos Caminhoneiros de Mato Grosso do Sul, Osny Carlos Bellinati, também avalia que o aumento não chegou a ser tão expressivo.

“O preço do frete não aumentou muito mesmo não, foi um pouquinho só. Até porque, o que rege hoje é a tabela da Agência Nacional de Transportes Terrestres [ANTT]”, enfatiza.

Bellinati também ressalta a importância de se manter à tabela, uma vez que, ainda um dos impactos sentidos pelos caminhoneiros é a prática de se cobrar abaixo dos valores mínimos.

“O valor do frete aumentar um pouco é algo que não necessariamente gera um impacto tão significativo quanto a cobrar abaixo. Isso sim é algo que pode impactar nos valores a longo prazo, uma vez que configura uma competitividade desleal”, destaca.

PRODUÇÃO
O aumento no valor do frete também pode gerar reflexos ao longo de toda a cadeia produtiva. Segundo o economista Eduardo Matos, os efeitos variam conforme o tipo de produto e o modelo de comercialização.

“A oscilação no preço do frete pode impactar de duas formas. Para aqueles produtos cujos preços são tabelados, como é o caso das commodities, como soja, milho, carne e leite, entre outros, o produtor geralmente é o primeiro a sentir o peso dessa mudança, desse aumento do frete. Isso porque, devido aos preços serem tabelados, o produtor não tem autonomia para repassar esse aumento no seu custo para o consumidor”, explica.

Ele ainda acrescenta que há uma segunda situação, quando o produtor vende para empresas responsáveis pela exportação ou pelo beneficiamento.

“Nós temos uma segunda situação em que o produtor não realiza a movimentação desse produto. Ele realiza somente a venda desse produto a uma empresa que realiza a exportação ou a uma empresa que realiza o beneficiamento desse material, como, por exemplo, podemos citar a relação do pecuarista com o frigorífico. O frigorífico é quem vai pagar, de fato, esse frete. É muito raro aquele produtor que atua de ponta a ponta”, detalha.

“Então, o que nós temos é um frigorífico, por exemplo, ou uma esmagadora de soja, ou uma produtora de biocombustíveis a partir do milho, ou biodiesel de soja, ou até mesmo o etanol da cana-de-açúcar. Nós temos uma situação em que esse produtor agora, sim, possui o controle sobre a precificação. Então, ele consegue alterar a precificação, até mesmo porque, na maior parte dos casos, não se trata mais de uma commodity”, comenta Matos.

Nesses casos, segundo ele, o custo tende a ser repassado. “Os prejuízos vão para o consumidor final. O consumidor final passa a pagar um preço com os custos já repassados, mesmo porque os produtores, agora falando do ponto de vista industrial, essas empresas que compram as commodities e ou vendem ou então beneficiam, dificilmente arcam com prejuízo. Então, na maior parte das vezes, o consumidor é quem vai sofrer as consequências”, analisa.

No campo das exportações, ele pondera que pode haver impacto pontual, mas destaca a capacidade de ajuste do mercado internacional de commodities.

“Pensando em exportações, o custo pode, sim, impactar a competitividade. No entanto, nós devemos sempre lembrar que, em primeiro lugar, o Brasil é uma potência quando falamos em exportação de commodities agrícolas e, em segundo lugar, aquele fato que eu acabei de mencionar quanto à precificação das commodities”, contextualiza.

“A nossa exportação de soja, por exemplo, já é toda precificada. Inclusive, esses efeitos nas margens dos produtores tendem a ser diluídos ao longo do tempo, porque o mercado acaba se regulando. O mercado financeiro consegue precificar, inclusive, a soja futura, contratos futuros”, pontua.

“Pode haver, no curto prazo, uma perda na competitividade, mas o mercado, principalmente o mercado de commodities, tem um poder de autorregulação bem alto”, enfatiza.

Já no cenário interno, especialmente em Mato Grosso do Sul, onde parte significativa dos alimentos e combustíveis consumidos vem de outros estados, o impacto pode ser mais direto.

“Pensando no consumidor final, o frete é um componente muito importante na inflação. E isso se intensifica quando pensamos em Mato Grosso do Sul. Geralmente vinculamos o Estado a um grande produtor rural – e, sim, nós somos um grande produtor de soja, milho e carne”, finaliza Matos.

Correio do Estado

Deixe seu comentário...

Rolando para carregar anúncio...