
Foto: Anatolii Frolov/Gettyimages
Há lugares dos quais somos incapazes de sair, mesmo quando partimos. Vínculos que carregamos por inércia, relações e situações abusivas, posições subjetivas das quais, aparentemente, nos despedimos em algum momento da vida e às quais retornamos em sonho, em sintoma, em acting out, em repetições das mais diversas. Adultos que não conseguem sair da casa dos pais.
É um paradoxo conhecido por qualquer clínico: existe uma estranha resistência interna que nos retém em endereços nos quais já não nos reconhecemos como sujeitos. A psicanálise costuma nomear essa resistência de muitas maneiras: retorno do recalcado, regressão, fixação, demanda, gozo. E frequentemente a localiza nos sonhos e pesadelos recorrentes relatados pelos analisandos.
A literatura, por sua vez, encontrou em Esperando Godot, de Samuel Beckett, uma das nomeações mais precisas desse impasse. É dela que parto para refletir sobre a pergunta: por que é tão difícil sair de um lugar do qual já fomos embora? Através da peça e da análise de alguns pesadelos recorrentes, acredito ser possível ensaiar uma resposta.
A peça põe em cena dois personagens, Vladimir e Estragon, num cenário desértico de pedras e uma árvore morta. Ao longo de dois atos, eles esperam a chegada de um certo Godot, que nunca chega. A espera é a estrutura única do drama. Para passar o tempo, brigam, se reconciliam, falam de suicídio, trocam chapéus, contam histórias que esquecem na metade. Periodicamente, surgem Pozzo, um senhor de terras, e Lucky, seu servo amarrado por uma corda no pescoço, que cruzam a cena e dela se retiram. Ao final de cada ato, um menino aparece anunciando que Godot não virá hoje, mas certamente virá amanhã. O dia seguinte é apenas a repetição do anterior.
O crítico irlandês Vivian Mercier descreveu a peça numa fórmula que entrou para a história da crítica literária: trata-se de uma peça em que nada acontece, duas vezes. A precisão da fórmula está em sublinhar que o segundo ato não acrescenta nem subtrai à estrutura do primeiro; apenas a reitera. É nessa reiteração, e não na inação isolada, que reside a força dramática do texto. Esperando Godot pode ser pensada como uma peça sobre a estrutura subjetiva da espera enquanto inibição do ato. A inação, aqui, não é acidente: é um modo de existência.
Costuma-se associar Godot à homofonia inglesa com God e ao diminutivo francês Ot (Deus mais o sufixo -ot, um pequeno Deus ou deusinho), e há razão para isso. Godot ocupa, na economia da peça, a função do Outro garantido, aquele cuja chegada finalmente conferiria sentido à espera, autorizaria os personagens a partir, redimiria o tempo passado em vão. É o Pai, o messias, a palavra prometida, a única saída.
Roland Barthes, nos seus Fragmentos de um discurso amoroso, observa que fazer esperar é prerrogativa constante de todo poder, passatempo milenar da humanidade. A corda que liga o pescoço do escravo à mão do mestre já apontava para isso. Beckett radicaliza a observação ao mostrar que, na espera estruturalmente prolongada, é o próprio sujeito que cede à promessa do Outro como forma de garantia.
A esperança em Godot, a falsa promessa anunciada pela boca de uma criança, o mensageiro do deusinho, é o motor mesmo dessa paralisia infantil: não deixa de ser a corda no pescoço de todos nós. O final é formulado com uma das mais célebres indicações cênicas do teatro do século 20: “Vladimir: Então, vamos embora. Estragon: Vamos lá. Não se mexem. Cortina.”
Confesso que comecei a ler Esperando Godot movido por uma indicação colateral. Em alguns momentos de seus seminários, Lacan emprega a expressão “à espera de Godot”, corrente em contextos acadêmicos e intelectuais, mas até então desconhecida para mim. Eu já havia lido Beckett na adolescência, em montagens escolares, mas reparar nessa expressão e ser movido pelo desejo de conhecê-la era efeito daquilo que circulava num momento da minha análise pessoal: fazia algum tempo que eu me sentia em estado de espera, como os personagens da peça.
Foi nesse contexto que comecei a ter pesadelos recorrentes, com uma mesma temática repetitiva, uma espécie de cena de desamparo que vez ou outra me fazia despertar aos prantos ou me deixava insone. Relato dois aqui.
No primeiro, eu andava de um lado para o outro pelos cômodos da casa dos meus pais, durante uma festa de família, esperando que alguém quisesse minha presença ali e não me deixasse ir embora. Cogitava, meio desesperado, quebrar coisas no quarto da minha irmã. E notava que meu quarto na casa estava vazio: eu já não morava mais ali fazia tempo. Passava na frente de dois tios na esperança de que perguntassem o que havia acontecido, mas ninguém dizia nada. Em outra versão do mesmo sonho, eu permanecia, ao final, deitado em posição fetal, esperando que alguém viesse falar comigo.
No segundo, eu via, de fora da cena, um suspeito que iria me roubar, e não fazia nada. Acabava sendo roubado. Saía correndo atrás do assaltante por ruas escuras, era despistado, encontrava uma viatura de polícia e pedia ajuda. O policial não se dignava sequer a abrir o vidro. Eu sentava no meio-fio e chorava. Sentia vontade de morrer. Então despertava.
Esses sonhos de angústia exibem uma estrutura comum: encenações de uma mesma posição subjetiva. Em ambos, eu fico esperando e demando a presença do desejo do Outro, do cuidado do Outro. Em ambos, recaio numa posição, digamos, regressiva para isso.
No primeiro, espero que alguém não me deixe ir embora, mesmo notando que já não morava ali, e ninguém me segura; e assim, justamente em posição fetal, não consigo partir. No segundo, ausento-me da cena e, em seguida, choro pela ausência de resposta do Outro, o policial, ali onde eu mesmo, em primeiro lugar, me ausentei. Em ambos os casos, o ato falta. A espera ocupa o lugar onde algo poderia ter sido decidido.
A pergunta pode soar estranha, porque, se já partimos, partimos. Mas não à escuta psicanalítica. A psicanálise mostra que a partida é raramente um ato único e inteiro. Há uma diferença, sutil mas decisiva, entre o ir-se e a vontade de ir embora, entre a saída efetiva e a fantasia da saída. E é nessa diferença que se aloja, talvez, parte considerável do sofrimento que escutamos nos consultórios: o sofrimento de pessoas que vivem em casas que já abandonaram, em empregos que já largaram, em vínculos que já se desfizeram, sustentando em si mesmas aquilo que já não são.
Comecemos por Freud. Ao apresentar a teoria da regressão libidinal, ele recorre a uma analogia antropológica e poética. Quando, nos primórdios da história humana, um povo abandonava seu local de morada e procurava outro, podemos ter certeza de que nem todos chegavam à nova localidade. Pequenos grupos paravam no caminho e se fixavam nesses locais de parada, enquanto o grosso da massa prosseguia adiante. Quanto mais robustos os destacamentos deixados para trás, maior a tendência regressiva diante das dificuldades futuras: os escalões avançados tenderiam a recuar para esses pontos de parada quando se vissem derrotados.
A imagem traduz uma operação subjetiva: toda partida deixa para trás destacamentos. Partes de nós nunca foram embora; ficaram acampadas em algum entreposto da história libidinal. E a vida adulta, quando topa com seu desamparo estrutural, com a constatação de que o Outro não está ali assegurando minha existência, retorna para esses acampamentos como quem volta para casa.