
Foto: Polícia Civil
Uma ação conjunta das Polícias Civil e Militar impediu, ontem (12), a realização de uma festa em comemoração ao Dia das Crianças em Pedro Gomes, no Norte do Estado. Segundo as investigações, o evento seria financiado e organizado por integrantes do Comando Vermelho, como parte de uma estratégia para aproximar a facção criminosa da comunidade.
A operação foi realizada após levantamentos de inteligência indicarem que o grupo planejava promover ações semelhantes em três municípios da região: Coxim, Sonora e Pedro Gomes.
De acordo com o relatório policial, as equipes identificaram previamente o local e o horário previstos para a festa em Pedro Gomes: o campo de futebol do bairro São Luís, às 15h. As investigações também apontaram a participação de organizadoras locais e o contato delas com uma suposta liderança externa da organização criminosa.
Ainda conforme a apuração, a contratação de brinquedos infláveis seria paga em dinheiro, diretamente no local do evento, procedimento que, segundo os investigadores, dificultaria o rastreamento da origem dos recursos.
A atuação policial em Pedro Gomes ocorreu após uma ação semelhante em Sonora, onde um evento infantil foi interrompido. Na ocasião, duas mulheres foram presas e aproximadamente 200 brinquedos e doces foram apreendidos.
Com informações sobre o planejamento das atividades nos municípios da região, as forças de segurança concentraram os esforços em Pedro Gomes para impedir a realização da festa.
No local, os policiais encontraram duas mulheres preparando uma estrutura para distribuição de alimentos. Questionada, uma delas afirmou que organizava uma comemoração para as crianças da comunidade, mas, segundo o registro, não apresentou autorização para o evento.
Uma das investigadas já era conhecida das forças de segurança e havia sido mencionada em ocorrência anterior por supostamente ameaçar vizinhos em nome da facção.
Conforme o relatório da investigação, a análise de aparelhos apreendidos apontou possíveis vínculos entre as investigadas e integrantes do Comando Vermelho.
Os investigadores relataram a existência de conversas com referências diretas à facção, de um grupo destinado à organização financeira do chamado “projeto Dia das Crianças” e de transferências via Pix entre as suspeitas.
Segundo a polícia, uma das investigadas também teria utilizado suas contas bancárias para movimentar recursos destinados à iniciativa. Ela foi presa em flagrante, assim como a outra mulher envolvida na organização do evento.
As duas foram autuadas por crimes relacionados à organização criminosa e ao favorecimento do domínio social estruturado. A autoridade policial representou ao Poder Judiciário pela manutenção das prisões e pela decretação da prisão preventiva. A decisão judicial sobre os pedidos não foi informada.
Durante a operação, a Vigilância Sanitária municipal foi acionada para avaliar os alimentos que seriam distribuídos às crianças.
Segundo a diretoria do órgão, não foi possível atestar a segurança dos produtos, uma vez que não havia informações suficientes sobre as condições de higiene e preparo. Diante da impossibilidade de garantir que os alimentos eram próprios para consumo, o material foi descartado de forma adequada.
A avaliação sanitária levantou uma preocupação adicional: além da suspeita de financiamento por uma organização criminosa, os alimentos seriam distribuídos sem comprovação das condições necessárias para assegurar a segurança alimentar das crianças.
De acordo com a análise apresentada pelas forças de segurança, a promoção de eventos comunitários e a distribuição de benefícios podem ser utilizadas por organizações criminosas para conquistar a simpatia dos moradores, estabelecer vínculos de dependência e ampliar sua influência nos bairros.
O relatório relaciona essa prática à chamada narcocultura, fenômeno em que símbolos, lideranças e ações associadas ao crime organizado passam a integrar o cotidiano de determinadas comunidades.
Segundo os investigadores, esse tipo de iniciativa também pode contribuir para enfraquecer a confiança nas instituições públicas e dificultar a colaboração dos moradores com as autoridades.
A Polícia Civil informou ainda que outras pessoas continuam sendo investigadas por possível envolvimento com o grupo.
O caso segue sob apuração para esclarecer a participação dos envolvidos e a extensão da atuação da organização criminosa na região norte de Mato Grosso do Sul.