Milho muda a rota da produção e abre novas oportunidades no interior de MS

Com biorrefinarias mais próximas das lavouras, produtores ganham alternativas de venda e cidades como Maracaju e Sidrolândia veem crescer a procura por trabalhadores qualificados; desafio é fazer a nova riqueza alcançar também famílias e pequenos negócios.

Foto: Divulgação

Quando o produtor rural Chester Vincensi decidiu ampliar sua atuação para Sidrolândia, além da propriedade que já mantém em Maracaju, a diversificação da lavoura ganhou uma possibilidade que antes era mais limitada na região.

Soja e milho continuam ocupando espaço importante na produção. Mas o sorgo passou a entrar na conta.

“Temos uma propriedade em Maracaju e, recentemente, arrendamos uma área em Sidrolândia. Nossa produção sempre foi voltada principalmente para soja e milho, mas agora também estamos investindo no sorgo”, conta.

Por trás de uma decisão que pode parecer estritamente agrícola está uma mudança mais ampla na economia do interior de Mato Grosso do Sul: a aproximação física entre as lavouras e indústrias capazes de transformar os grãos.

Para Chester, isso interfere diretamente nas escolhas feitas dentro da propriedade. A existência de compradores e estruturas de recebimento mais próximas pode reduzir a distância percorrida pela produção, diminuir custos de transporte e ampliar as alternativas na hora de comercializar a safra.

“A possibilidade de entregar a produção diretamente para a indústria, aliada às opções de armazenamento mais próximas, abre uma boa perspectiva de mercado. Isso nos permite reduzir custos com transporte, investir mais na propriedade e buscar uma melhor rentabilidade na comercialização.”

O efeito aparece também na escolha do que plantar. Durante anos, explica Chester, a estrutura regional de recebimento esteve concentrada principalmente em soja e milho. Com a indústria passando a demandar também sorgo, o produtor encontra outra alternativa para a segunda safra.

“Em vez de plantar apenas milho na segunda safra, muitos agricultores passam a enxergar o sorgo como uma opção viável, porque existe um mercado garantido e um local para entregar essa produção”, afirma.

A experiência do produtor ajuda a explicar uma transformação que começa no campo, mas já alcança outros setores da economia de Maracaju e Sidrolândia.

Quando a indústria se aproxima da lavoura

Os dois municípios estão entre importantes produtores de milho de Mato Grosso do Sul e colheram, juntos, mais de 3 milhões de toneladas na segunda safra de 2024/2025.

A diferença é que uma parcela dessa produção passou a encontrar destino industrial perto de onde foi colhida.

Em Maracaju, a Neomille iniciou as operações com uma primeira fase projetada para processar aproximadamente 608 mil toneladas de milho por ano. A unidade transforma o grão em etanol e também produz farelo destinado à alimentação animal e óleo de milho.

Em Sidrolândia, a expansão da Inpasa levou a capacidade declarada da planta a 800 milhões de litros de etanol por ano, além da produção de DDGS, óleo e energia elétrica.

É nesse ponto que o milho deixa de ser apenas uma commodity que sai da propriedade depois da colheita.

Dentro da biorrefinaria, o amido pode ser transformado em etanol. A parte rica em proteínas dá origem ao DDG ou DDGS, utilizado na alimentação de bovinos, suínos e aves. O processamento também gera óleo e energia.

Forma-se, assim, uma cadeia em que a agricultura passa a conversar diretamente com a indústria, a pecuária, o transporte e os serviços.

O agricultor entrega o grão. A indústria produz combustível. Parte do milho retorna ao campo na forma de alimentação animal. Caminhões transportam matéria-prima e coprodutos. Máquinas e veículos precisam de manutenção. Laboratórios fazem análises. Empresas fornecem alimentação, equipamentos, segurança e outros serviços.

Na safra 2025/2026, Mato Grosso do Sul projetou alcançar 5 bilhões de litros de etanol. O milho já representa 44% desse volume, sinal de uma mudança importante em uma atividade historicamente associada à cana-de-açúcar.

Essa integração entre produção agrícola e processamento industrial faz parte da estratégia econômica defendida pelo governador Eduardo Riedel, do Progressistas, candidato à reeleição.

A aposta é ampliar o processamento dentro do próprio Estado para que uma parcela maior do valor gerado pela produção agrícola permaneça em Mato Grosso do Sul na forma de empregos, salários, serviços e demanda por empresas locais. A candidatura de Riedel à reeleição foi oficializada pelo PP em agosto.

“O avanço não significa abandonar a vocação agrícola. Significa acrescentar uma etapa entre a colheita e o consumidor”, afirma Riedel.

A fábrica também muda o emprego disponível

A transformação não termina na porteira.

Uma biorrefinaria precisa de trabalhadores para receber e armazenar grãos, mas também depende de mecânicos, eletricistas, operadores industriais, técnicos de laboratório, profissionais de automação, logística, segurança do trabalho e controle de qualidade.

São ocupações que alteram o perfil do mercado de trabalho em municípios tradicionalmente ligados à produção agropecuária.

Em outubro de 2025, uma rodada de empregabilidade promovida pela Funtrab e pela Biosul ofereceu 637 vagas em 15 municípios de Mato Grosso do Sul, entre eles Maracaju e Sidrolândia. Naquele momento, o setor de bioenergia reunia cerca de 33 mil empregos diretos e movimentava aproximadamente R$ 1,3 bilhão por ano em salários no Estado.

Em Sidrolândia, esse crescimento aumentou também a pressão pela formação de trabalhadores capazes de ocupar as novas funções.

Para o gerente da região centro-norte do Senai, Jeancarlos Lucietto, o município atravessa uma mudança econômica que exige que a qualificação acompanhe a chegada dos investimentos.

“Sidrolândia vive um momento histórico de transformação e expansão econômica. A rápida industrialização do nosso município gerou um novo ciclo de oportunidades de trabalho e renda para a nossa população”, afirma.

O Senai passou a oferecer formações direcionadas às necessidades apresentadas pelas empresas. Entre elas estão os cursos técnicos em Eletrotécnica e Segurança do Trabalho, além de Mecânica Industrial e Eletromecânica e qualificações em refrigeração, informática, gestão, elétrica e mecânica veicular.

Segundo Lucietto, há turmas sendo absorvidas pelas empresas logo depois da formação.

“Esses cursos têm sido verdadeiros motores de empregabilidade, com turmas inteiras sendo absorvidas pelas indústrias e empresas de Sidrolândia e região logo após a formação.”

Para quem procura emprego, a discussão sobre industrialização deixa então o terreno das grandes cifras e passa a envolver questões mais próximas: conseguir uma formação, disputar uma vaga, melhorar a renda e poder construir uma carreira sem precisar deixar a cidade.

“Nosso compromisso é garantir que o morador de Sidrolândia não precise sair da sua cidade para se qualificar e construir uma carreira de sucesso”, diz Lucietto.

Esse é também um dos pontos centrais da política defendida pelo governo estadual: aproximar qualificação profissional e investimentos privados.

“A indústria abre vagas, mas a formação define se elas serão ocupadas por moradores da região ou por profissionais que precisam ser trazidos de outros estados”, afirma Riedel.

Para que essa conexão funcione, no entanto, o curso precisa chegar enquanto existe demanda por trabalhadores e estar acessível a quem precisa conciliar estudo, emprego e renda.

Mais compradores não acabam com os riscos do campo

A instalação das biorrefinarias amplia as possibilidades de comercialização, mas não elimina as incertezas enfrentadas pelos produtores.

Clima, preço dos insumos, crédito, frete e oscilações do mercado continuam interferindo diretamente no resultado de cada safra.

Entre 2023/2024 e 2024/2025, por exemplo, a produtividade média estadual do milho passou de 67 para mais de 108 sacas por hectare. A diferença entre os dois ciclos ajuda a mostrar quanto o resultado da lavoura pode mudar de um ano para outro.

Ter uma indústria por perto oferece mais uma porta para vender a produção, mas não garante sozinho maior rentabilidade.

O resultado depende do preço oferecido pelo comprador, das condições estabelecidas nos contratos, dos padrões de qualidade exigidos e da possibilidade de armazenar a produção para evitar a venda justamente no momento menos favorável.

É por isso que estradas, armazenagem e informação agrícola também entram nessa equação.

Uma fábrica pode estar pronta para receber centenas de milhares de toneladas de milho, mas a vantagem para quem produz diminui se transportar a safra continuar caro ou se não houver estrutura suficiente para armazená-la.

Na propriedade de Chester, a mudança é percebida justamente pela ampliação das escolhas.

“Quanto mais opções de comercialização o produtor tiver, maior será a segurança para investir. Isso movimenta a economia, estimula a produção e beneficia toda a cadeia do agro”, diz.

O desenvolvimento precisa ultrapassar os portões da fábrica

O etanol de milho também ocupa espaço na estratégia de transição para uma economia com menor emissão de carbono. Mas o impacto de uma nova indústria não pode ser medido apenas pelo combustível produzido.

Para Riedel, a expansão precisa combinar atividade econômica, uso responsável dos recursos naturais e resultados concretos.

“Desenvolvimento verde não é apenas substituir gasolina por etanol. É produzir combustível renovável com uso responsável dos recursos e resultados verificáveis”, afirma.

Para quem mora em Maracaju ou Sidrolândia, porém, esses resultados são percebidos em outra escala.

A transformação acontece quando um jovem encontra sua primeira oportunidade numa profissão técnica; quando um trabalhador consegue se qualificar para uma nova função; quando uma oficina ganha clientes; quando uma transportadora aumenta o movimento; ou quando uma pequena empresa passa a fornecer alimentação, uniformes, manutenção ou outros serviços para uma planta industrial.

No campo, pode aparecer na possibilidade de escolher entre mais compradores, reduzir a distância percorrida pela safra ou cultivar um grão que antes encontrava poucas alternativas de comercialização.

É justamente isso que Chester observa ao incorporar o sorgo à produção.

Fazer a riqueza permanecer onde o milho é produzido

Maracaju e Sidrolândia continuam sendo territórios fortemente vinculados à agricultura. O que começa a mudar é o caminho percorrido por parte da produção depois da colheita.

Em vez de sair do Estado apenas como matéria-prima, o milho pode ser processado perto da lavoura e se transformar em combustível, proteína para alimentação animal, óleo e energia.

Nesse percurso, também pode gerar salários e criar mercado para transportadoras, oficinas, fornecedores e prestadores de serviços.

O desafio está em fazer essa cadeia alcançar um número cada vez maior de pessoas.

Para o próximo ciclo, Riedel aponta como prioridades a formação de trabalhadores, o fortalecimento de fornecedores locais, a melhoria da infraestrutura de transporte e armazenagem e a necessidade de acompanhar a industrialização com responsabilidade ambiental.

São condições decisivas para determinar quanto da riqueza gerada pelas novas plantas industriais permanecerá, de fato, nas cidades que as recebem.

Para Chester Vincensi, essa transformação já começa de maneira bastante concreta: ter outro produto que pode ser plantado, mais de um destino para a safra e uma indústria próxima o suficiente para entrar nas contas feitas antes mesmo de a semente chegar ao solo.

No fim, é nesse tipo de decisão cotidiana — plantar, transportar, vender, contratar, estudar ou permanecer na própria cidade — que milhões de toneladas de milho deixam de ser apenas uma estatística e começam a revelar o alcance real da industrialização no interior de Mato Grosso do Sul.

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