
O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o presidente chinês, Xi Jinping, antes de uma reunião bilateral na Base Aérea de Gimhae, em 30 de outubro de 2025, em Busan, Coreia do Sul • Andrew Harnik/Getty Images
O presidente dos EUA, Donald Trump, fez uma concessão extraordinária em seu acordo histórico com o líder chinês Xi Jinping nesta quinta-feira (30): em troca de promessas de que a China vai reprimir a produção e o envio de fentanil, os Estados Unidos reduzirão em 10% as tarifas aplicadas sobre produtos chineses.
À primeira vista, trata-se de um acordo promissor, que pode restaurar parte do comércio interrompido pelas tarifas entre as duas maiores economias do mundo.
A redução fará com que a tarifa mínima sobre importações chinesas caia para 20%, e a taxa média fique em torno de 47%.
Ainda é um valor alto em comparação com o de muitos outros parceiros comerciais dos EUA, mas mais alinhado com o restante do mundo.
Mas a redução das tarifas também representa uma aposta arriscada para o governo Trump, que vem enfrentando um problema persistente em sua guerra comercial inédita com a China: Xi tem superado Trump em praticamente todas as rodadas.
O simples fato de os dois terem se encontrado pessoalmente já indica que o presidente americano cedeu a exigências de Pequim.
E, como a história mostra nesses acordos intermitentes, não está claro se os Estados Unidos realmente obterão algo significativo em troca da concessão sobre o fentanil.
Enquanto isso, Trump corre o risco de desgastar ainda mais a relação dos EUA com seus principais aliados — ao mesmo tempo em que se aproxima de seu maior adversário econômico.
Trump aposta que desta vez será diferente. A história sugere o contrário.
Trump buscava quatro resultados principais com suas tarifas sobre a China:
O governo fez progressos reais nos quatro pontos.
A China apontou ações mais firmes para evitar a exportação dos químicos usados na produção do fentanil.
Dezenas de empresas anunciaram investimentos bilionários em fábricas nos EUA. O déficit comercial entre os dois países atingiu o menor nível em 21 anos, em agosto. E Trump e Xi concordaram em um esboço de acordo sobre a TikTok.
Por outro lado, a relação fria entre as duas potências também trouxe grandes prejuízos para os EUA.
A China restringiu a exportação de minerais de terras raras — essenciais para a indústria eletrônica e o setor militar.
Também deixou de comprar soja americana, prejudicando agricultores, e abriu investigações antitruste contra empresas dos EUA.
Além disso, impôs pesadas tarifas próprias sobre produtos americanos.
Apesar de várias rodadas de negociações, Pequim continuou adiando o cumprimento de suas promessas.
As terras raras, em especial, se tornaram um ponto crítico. Garantias anteriores de um mercado livre para esses materiais nunca se concretizaram. Neste mês, a China inclusive ampliou suas restrições.
Pelo acordo de quinta-feira, Pequim concordou em reverter parte dessas novas regras, embora as restrições originais, anunciadas em abril, permaneçam em vigor.
Enquanto isso, o futuro da TikTok nos EUA continua incerto.
Após várias rodadas de conversas, a China evitou confirmar um acordo final, limitando-se a prometer que “trabalhará com os EUA” para resolver o impasse.
O próprio Trump já reconheceu, diversas vezes, que a China costuma não cumprir sua parte nos acordos.
“Tive muitas conversas com a China sobre as enormes quantidades de drogas, especialmente fentanil, sendo enviadas aos Estados Unidos — mas sem sucesso”, escreveu Trump no Truth Social, semanas após a eleição.
Ele afirmou que autoridades chinesas haviam prometido executar traficantes pegos enviando drogas para os EUA, mas “nunca cumpriram”.
Por que, então, Trump faria um acordo com a China sobre o fentanil, se Xi costuma recuar de suas promessas?
Primeiro, porque a China realmente tomou algumas medidas concretas.
No último verão, o país adicionou dois novos elementos usados na produção de fentanil à lista de substâncias controladas. Quando redes criminosas passaram a vender esses produtos no mercado negro, as autoridades chinesas agiram para conter as exportações.
Trump citou na quinta-feira a “ação muito forte” da China no combate ao fentanil como motivo para reduzir as tarifas sobre os produtos chineses.
Há indícios de progresso: nos últimos anos, o fentanil originado na China diminuiu.
A Agência de Combate às Drogas dos EUA (DEA) informou em seu relatório anual, divulgado em maio, que a pureza do fentanil caiu em 2024, o que sugere que os produtores no México estavam com dificuldade para obter precursores químicos.
A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA também relatou queda nas apreensões da droga em 2024, tendência que continua em 2025.
Trump pode ou não acreditar que a China está realmente agindo, mas ele adotou um tom mais brando esta semana. “Acredito que eles vão nos ajudar com a questão do fentanil”, disse o presidente. “Eles farão o que estiver ao alcance deles.”
O segundo motivo é que a China ainda detém grande poder de barganha.
As tarifas de Trump provocaram efeitos contrários aos esperados: irritaram agricultores americanos — um eleitorado-chave — e geraram escassez de minerais de terras raras.
Além disso, Pequim se recusa a abrir completamente seu mercado para chips de inteligência artificial dos EUA, outro grande objetivo de Trump.
As tarifas continuam sendo uma das poucas alavancas que o presidente pode usar, mesmo que a China tenha encontrado novos mercados para seus produtos, reduzindo o impacto das sanções americanas.
Ainda assim, a redução das tarifas é uma das principais exigências de Pequim — e o encontro entre Trump e Xi era outra.
Ao ceder em parte dessas frentes, especialmente se a China demonstrou boa vontade no tema do fentanil, Trump ganha margem para tentar obter concessões adicionais.
Em uma declaração vaga nesta quinta-feira, o governo chinês disse que fará “ajustes correspondentes” em suas contramedidas após a decisão de Washington de cortar pela metade as tarifas.
Um possível problema para os EUA: os outros dois países sobre os quais o governo Trump impôs tarifas relacionadas ao fentanil — México e Canadá — certamente observaram o anúncio de quinta-feira com desconfiança.
Ambos também têm adotado medidas para restringir o tráfico da droga para o território americano.
Além disso, o fentanil proveniente do Canadá representa menos de 1% do total apreendido nos EUA.
Mesmo assim, Trump ameaçou aumentar as tarifas sobre México e Canadá — enquanto reduz as da China.
O acordo pode melhorar a relação com o principal rival econômico dos EUA, mas à custa de irritar seus dois maiores parceiros comerciais e aliados históricos.
Enquanto isso, a redução nas tarifas pode beneficiar consumidores americanos, que há anos vêm pagando mais caro devido às políticas comerciais.
Ainda que lentamente, qualquer alívio será bem-vindo pelos eleitores preocupados com a inflação