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24 de junho de 2018
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Hidrelétricas ameaçam Pantanal e sobrevivência de ribeirinhos

Usinas e pequenas centrais hidrelétricas mudam a dinâmica dos afluentes do Rio Paraguai (Divulgação/Ecoa)

Ecossistemas são organismos complexos e interdependentes e cada ser vivo, por menor que seja, contribui para o seu funcionamento. Um dos principais ecossistemas do mundo é o Pantanal, que se estende por mais de 200 mil quilômetros quadrados. A sobrevivência do complexo organismo está ameaçada.

É o que alerta a ong Ecoa, que contabilizou e mapeou usinas hidrelétricas em toda a BAP (Bacia do Alto Paraguai). Ao reter a água e depois soltá-la para gerar energia, as usinas hidrelétricas e PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) alteram toda a dinâmica do Paraguai e de seus afluentes.

As consequências são desastrosas e entre elas está a sobrevivência de milhares de ribeirinhos, que dependem da vida dos peixes para permanecerem ao longo da Bacia. Em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, o que se observa é um êxodo das comunidades.

É o que explica a pesquisadora da Ecoa e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), Silvia Santana.

“Aqui em Mato Grosso do Sul tem a Porto dos Bispos, onde tinha a maior atividade turística na comunidade, ela foi totalmente afetada, famílias que possuíram chalanas, está apodrecendo porque não tem como navegar. Não recebem nenhum apoio do poder público”, conta ela.
Já são 38 empreendimentos na BAP. Além desses, 4 estão em fase de construção, 7 estão outorgadas e outros 11 em fase de estudos aceitos. Além disso, ainda há promessas de futuras usinas: 81 PCHs e 3 hidrelétricas em fase de estudo.

A maioria dos empreendimentos, explica Silvia, pertence à empresas e a energia gerada não fica no Estado.

“Existe uma demanda por energia, principalmente pra abastecer indústrias, a maior parte dessa energia gerada cai num sistema geral, no sistema brasileiro de energia. Toda a produção vai pra Minas Gerais e São Paulo, não ficam aqui no estado, cai na rede. Essa energia é para abastecer os grandes centros”, comenta.

Silvia relata que a construção de usinas no pantanal é proibida, mas a construção na chamada “borda”, não. A proliferação desse tipo de empreendimento muda completamente o funcionamento do pantanal. Até as pastagens, que dependem dos componentes nutritivos, podem ser alterados.

Em carta divulgada pela Ecoa, comunidades que vivem ao longo do rio Correntes pedem socorro. O local marca a divisa entre Sonora (MS) e Itiquira (MT) e tem uma usina e duas PCHs. Agora, a construção de mais uma PCH pode tornar a situação insustentável.

“O rio que antes era a principal fonte de renda de muitas famílias, hoje já não oferece mais peixes. O setor turístico que gerava empregos e movimentava a economia local, se tornou quase inexistente. A violação dos direitos humanos é evidente, e até agora absolutamente nada foi feito para a mitigação, tanto de ordem ambiental como social, dos impactos gerados”, explica a carta assinada por Eleuza Bispo da Silva Roman, Presidente Associação de moradores da comunidade Porto dos Bispos, em Sonora.

“A usina por reter a água e soltar só quando ela quer, ao mesmo tempo que está alto eles seguram e em questão de 40 minutos está uma lâmina. Não existe como o peixe viver ali. A vida aquática acaba. Quando eles soltam a água vai comendo todo o barranco do rio, então o impacto na fauna, na flora, é enorme. Esse movimento atinge os barrancos, muitos carandás estão caindo no rio, que é a casa das araras, elas estão saindo da região”, explica Silvia.

“Todo o sistema do local é alterado. Isso a gente falando só de impactos ambientais. São cerca de 200 famílias que dependem única e exclusivamente do rio. Eles saem pra pescar e voltam as vezes sem nenhum peixe. Situações constrangedoras da pessoa falar que não tem o que comer”, conta a pesquisadora.

Estudo – A ANA (Agência Nacional das Águas) encomendou estudo para avaliar os possíveis riscos das usinas. O estudo vai analisar também se o aproveitamento hidrelétrico está em consonância com o uso múltiplo das águas no âmbito socioeconômico, ambiental, além das estratégicas relativas à pesca, abastecimento urbano, saneamento básico, irrigação, transporte, usos industriais, lazer, entre outros.

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