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2 de julho de 2020
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Cientistas nazistas deixam de dar nome a duas crateras na Lua

Crateras na Lua, com a dedicada a Lenard na parte esquerda.

“Vou cortar a garganta a desse judeu sujo.” Esta foi uma das ameaças que Albert Einstein teve que escutar de um jovem antissemita na década de 1920, antes de suspender uma conferência em Berlim, enquanto físicos compatriotas como Philipp Lenard e Johannes Stark o desprezavam por não se ajustar à “pureza germânica” e por consider seu trabalho “física judia”. Com a chegada de Adolf Hitler ao poder, Lenard e Stark impulsionaram um projeto para substituir professores universitários por “físicos arianos”. Àquela altura, Lenard, Stark e Einstein já tinham recebido o Nobel de Física, e décadas depois os três obtiveram uma homenagem astronômica por seus méritos científicos: uma cratera da Lua com o nome deles. Até agora. O satélite da Terra não carregará mais a homenagem a esses dois cientistas profundamente antissemitas. A ciência, como faz o movimento Black Lives Matter em todo o mundo, também está refletindo sobre a história de seus monumentos.

A União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) anunciou ao EL PAÍS que vai substituir em 10 dias os nomes das crateras Lenard e Stark, que homenageiam os cientistas nazistas, na face oculta da Lua. “Assim que soubemos do problema, o presidente do Grupo de Trabalho para a Nomenclatura Lunar iniciou o processo de eliminação destes nomes e preparou uma proposta para rebatizar as duas crateras”, diz a astrônoma alemã Rita Schulz, presidenta do grupo encarregado de dar nome aos objetos cósmicos. Ela recorda que Lenard e Stark eram especialistas em cometas, o que seria mais uma razão para torná-los “dois nomes inapropriados”.

Não se trata de dois cientistas que tiveram que se submeter ao regime em que viviam, como no caso de outros. Ao invés disso, abraçaram desde muito cedo as ideias nazistas e foram decisivos na difusão do antissemitismo na ciência. Já em agosto de 1930, quando o Partido Nazista estava prestes a se tornar a segunda força eleitoral do país, Lenard organizou com Stark a primeira reunião do grupo de Cientistas Alemães pela Preservação da Pureza da Ciência. Ali se desprezou a teoria da relatividade como sendo “física judia” e se acusou Einstein de plagiador e enganador, conforme narra Craig Nelson em seu livro The age of radiance (“a era da radiação”). Em seu feroz antissemitismo, Lenard e Stark continuaram intimidando seus colegas durante o regime nazista. Por exemplo, desprezavam a física quântica de Werner Heisenberg, a quem acusaram de ser um “judeu branco” e “peão judeu”. Heisenberg não era judeu, mas se servia da melhor ciência disponível, não só da ariana.

Em 1937, Stark escreveu na revista das SS que não bastava impor a raça ariana e excluir os judeus; era preciso também “erradicar o espírito judeu” e suas ideias. Em 1947, foi julgado e condenado a quatro anos de prisão (que não precisou cumprir) como “criminoso de primeira ordem”. Tinha ganhado o Nobel em 1919 por descobrir como os campos elétricos afetam a luz emitida pelos átomos, o chamado efeito Stark. Em 1905, Lenard ganhara o Nobel por seu trabalho com os raios catódicos. Húngaro de nascimento, ele foi assessor de Hitler, e o Partido Nazista o recompensou nomeando-o Chefe da Física Ariana. Quando os aliados chegaram à Alemanha, em 1945, Lenard perdeu o cargo de professor emérito da Universidade de Heidelberg e seu nome foi retirado das instituições acadêmicas que levavam seu nome, pois não era possível continuar homenageando um nazista.

A proposta para rebatizar as duas crateras está pronta e agora o grupo de Schulz a revisará (incluindo informações aprofundadas sobre as duas pessoas). Se tudo estiver em ordem, a mudança será aprovada em votação nos próximos dias. “As duas crateras não podem permanecer sem nome, porque devem ser claramente identificáveis para estudos e publicações científicas”, esclarece Schulz. Não é a primeira vez que se tira o nome de um nazista de uma cratera: em 2002, foi cassada a homenagem ao médico Hans Eppinger, que torturou ciganos de Dachau com seus experimentos, dando-lhes apenas água salgada para beber. Nos últimos meses, a IAU, que reúne astrônomos do mundo todo, revisou sua política contra o assédio moral e manifestou seu compromisso com a inclusão e contra o racismo e a discriminação.

A atual retirada dos nomes se deve ao físico quântico Mario Krenn, da Universidade de Toronto, depois de ler sobre Stark e Lenard no livro A serviço do Reich – A física nos tempos de Hitler, do cientista e divulgador Philip Ball. Como conta Ball em um artigo, Krenn o contatou para lhe advertir sobre essa homenagem aos físicos antissemitas e este o pôs em contato com a IAU. O responsável pela Lua nessa organização de astrônomos, Charles Wood, lhe explicou que os nomes permaneceram porque na documentação de apoio às suas candidaturas, lançadas na década de 1970, não foram incluídas referências ao seu fervoroso nazismo. “Não se menciona o passado nazista de Stark em sua biografia da Fundação Nobel”, afirma Wood. Já na de Lenard esse vínculo nazista é citado, mas a referência usada foi um dicionário biográfico de 1968 que evitou esse importante aspecto do personagem.

“Rita Schultz e eu acreditamos que estes nomes, Philipp Lenard e Johannes Stark, deveriam ser substituídos rapidamente”, respondeu Wood a Krenn, que comemora a decisão da IAU como “rápida, decisiva e exemplar”. Em seu artigo, Ball diz que o episódio das crateras nazistas reforça sua ideia de que os monumentos não são uma proteção contra a amnésia histórica, e sim, na verdade, uma consequência dessa amnésia. E se pergunta: “E se estivéssemos discutindo estátuas de nazistas? Realmente queremos vê-los homenageados em nossos espaços públicos em nome de ‘preservar a história’?”.

Stark tem na verdade quatro crateras com seu nome: uma de 47,7 quilômetros de diâmetro e outras três menores, nos arredores da maior, chamadas Stark E, R e V. A cratera de Lenard tem 47,6 quilômetros e seu nome foi revisado em 2005 para lhe acrescentar outra pequena cratera, conforme explica Schultz. Naquele momento, ninguém se lembrou de que Lenard escreveu com Stark estas palavras sobre Hitler e os nazistas: “Aparecem-nos como presentes de um Deus de tempos antigos, quando as raças eram mais puras, as pessoas eram maiores e as mentes estavam menos enganadas… Ele está aqui. Revelou-se como o Führer do sincero. Nós o seguiremos”. Escreveram isso em 1924, e a amnésia durou até hoje.

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