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24 de agosto de 2020
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‘Repórter tem que apanhar mesmo’: ataque de Bolsonaro gera onda de ameaças físicas a jornalistas

Foto: REPRODUÇÃO/ TWITTER

“Presidente Jair Bolsonaro, por que sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?”

A pergunta de um jornalista acerca das suspeitas sobre movimentações financeiras da primeira-dama foi repetida mais de 1 milhão de vezes no Twitter depois de o presidente responder dizendo que gostaria de “encher a boca (do repórter) com uma porrada”.

Apesar das críticas e notas de repúdio, a ameaça de agressão física feita pelo presidente também reverbera na forma de mais ataques e apologia de violência contra profissionais de imprensa, para além das “bolhas” progressistas nas redes sociais.

No Twitter, no Facebook e no Instagram, apoiadores de Jair Bolsonaro têm usado a frase do presidente como incentivo para agressões, em uma retórica que passa dos tradicionais ataques verbais para ameaças concretas de violência física.

Em demonstrações de apoio a Bolsonaro, brasileiros dizem, por exemplo, que jornalistas merecem “tomar porrada na boca” e dizem que o presidente “só errou” em não agredir o repórter.

Para estes bolsonaristas, a violência presidencial contra o repórter seria um sinal de defesa da esposa e de integridade.

“Ganhou mais minha admiração hoje, presidente, quando disse que queria quebrar aquele ‘jornalista na porrada’. Eu teria quebrado, pra ele respeitar mulher de homem”, escreveu um bolsonarista em resposta a um vídeo publicado por Bolsonaro na noite de domingo.

Em seu perfil, o homem se apresenta como “cristão, patriota, trabalhador e pai de família”.

Para especialistas consultados pela BBC News Brasil, a postura do presidente não surpreende, mas sugere uma deterioração do ambiente institucional do Brasil, o que pode resultar em uma escalada na violência bolsonarista contra a imprensa tradicional.

‘Jornalista tem que apanhar’

No último domingo, um repórter do jornal O Globo fez uma pergunta ao presidente sobre depósitos feitos pelo ex-assessor e amigo da família Fabrício Queiroz, preso por suspeitas de desvios e corrupção, na conta bancária de Michelle Bolsonaro.

Segundo a imprensa brasileira, Queiroz e a esposa, Márcia Aguiar, teriam feito 27 depósitos na conta da primeira-dama entre 2011 e 2016, movimentando um total de R$ 89 mil para Michelle Bolsonaro. Preso em regime domiciliar, Queiroz também é investigado por suposta ligação com a milícia fluminense.

“Vontade de encher tua boca com uma porrada, tá? Seu safado”, respondeu o presidente da República à pergunta do profissional de imprensa. A fala desencadeou críticas e notas de repúdio de políticos e entidades jornalísticas, mas também trouxe visibilidade à pergunta — que chegou ser reproduzida mil vezes a cada 40 segundos, segundo levantamento do professor Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

A resposta refratária ao trabalho da imprensa não é novidade no comportamento do presidente, aponta a professora Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do programa de estudos sobre Brasil da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

“A imprensa costuma causar uma intimidação no presidente e não é de hoje. Não dá para dizer que é uma surpresa porque ele se elegeu dessa fora, falando diretamente com o eleitorado e evitando canais de mediação. Lá na campanha, no inicio de tudo, Bolsonaro já tinha isso de evitar jornalistas. Ele evitava debates. A postura evasiva sempre esteve lá”, aponta Santos.

“Mas agora vemos uma subida de tom. Não se trata mais de evitar e às vezes ser grosseiro. Agora o presidente passou a ameaçar”, continua a especialista, que afirma que a pergunta feita pelo jornalista “passou a ser uma pergunta de todos”.

A fala de Bolsonaro foi vista por seguidores, no entanto, como uma reação “justa” a um “desrespeito” da imprensa contra a primeira-dama.

“Jornalista porco sujo tem q apanhar na cara ninguém mais aguenta tanta falta de respeito por jornalistas lixo sem vergonha”, escreveu um seguidor.

“Todo jornalista que faz pergunta idiota merece uma porrada”, disse outro.

Pelo Twitter, falas como “tem repórter que merece uma porrada na boca mesmo por serem tão inúteis”, “a resposta foi à altura” e “saiba que não é só o presidente, eu mesmo tenho vontade de cuspir na cara de alguns ‘jornalistas'” vêm se espalhando em resposta a reportagens e comentários críticos sobre o episódio.

‘Situação se deteriorando’

À BBC News Brasil o brasilianista Anthony Pereira, professor do King’s College de Londres, diz que o Brasil já era visto, desde antes da eleição de 2018, como um país onde os frequentes assassinatos de comunicadores e jornalistas tornam o trabalho de repórteres investigativos mais difícil.

“Mas agora, com o presidente ameaçando abertamente os jornalistas — um gesto que ele sabe que vai estimular ataques verbais e até agressões físicas contra jornalistas por parte de seus apoiadores — a situação está se deteriorando”, avalia.

“O presidente Bolsonaro invoca falaciosamente o direito à ‘liberdade de expressão; cada vez que alguém aponta a divulgação de notícias falsas por parte de seus partidários, mas é óbvio que seu compromisso com a liberdade de expressão não se estende a jornalistas que fazem perguntas difíceis”, prossegue o especialista britânico.

Já o professor Fábio Malini, da UFES, diz que “os bolsonaristas em geral têm sentimento ambíguo” em relação ao jornalismo.

“Eles requerem a instituição para si e refutam com violência os (jornalistas) que não dão anteparo ao governo”, diz Malini à reportagem.

“Quando isso acontece, a face extremista de Bolsonaro e seus seguidores fica mais nítida. Mas, dentro do cálculo político deles de agora, o extremismo parece não ser bom conselheiro”, avalia.

Tristeza

Para Pereira, a tática de perseguição a jornalistas não deve ter sucesso, “já que uma mídia independente e o pensamento crítico estão profundamente enraizados no Brasil”.

“Mas é triste ver um presidente eleito democraticamente tentando criar um clima de medo para se proteger de um escrutínio legítimo e de transparência e responsabilidade.”

Em coro com outros especialistas, Pereira também diz não se surpreender com o episódio e diz que o bolsonarismo ultrapassa o ceticismo saudável que existe em relação às diferentes formas de imprensa e potenciais conflitos de informação presentes no jornalismo.

“Ele cruza a linha que divide o ceticismo saudável e uma hostilidade ignorante e obscurantista em relação a evidências, lógica, ciência e razão.”

“O bolsonarismo, como o trumpismo, se alimenta da desconfiança, do medo e do ódio aos meios de comunicação, e joga isso sobre a população como forma de difundir desinformação e construir sua base popular”, ressalta o especialista.

Segundo o antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), atual Unidade de Inteligência Financeira (UIF), Fabrício Queiroz teria movimentado R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017, quando trabalhava como assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente e então deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

O Coaf era um dos principais órgãos dedicados à prevenção e combate à lavagem de dinheiro no país.

Em agosto de 2019, enquanto avançavam as investigações contra o filho, o presidente Jair Bolsonaro editou medida provisória com uma série de alterações no antigo Coaf, incluindo mudança de presidente, de nome e na estrutura — o órgão deixou de fazer parte do Ministério da Economia e passou a pertencer ao Banco Central.

Segundo Bolsonaro, as mudanças visavam “blindar” o antigo Coaf de interferências e pressões políticas.

Mas a alteração também foi vista como estratégia para ter mais controle sobre as atividades prestadas pelo órgão anticorrupção.

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