Coxim, MS
20 de outubro de 2020
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Foi vendendo meu corpo na rua que sofri estupro e “matei” travesti

Aos 25 anos, Cíntia* é mulher trans que faz programa no interior de MS (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando a dor é mais presente que o amor, o que podemos tirar de bom nessa vida? Cíntia* sofreu muita coisa em um quarto de vida. Já perdeu o pai, teve problemas com padrasto, passou por não só um, mas dois estupros, e foi presa acusada de ter matado a colega de rua. Aos 25 anos, a inocentada mulher transsexual e prostituta nas ruas de uma cidade do interior de MS afirma se sentir “preparada para o que vier nessa vida”.

Ela contou como a vida deu cabo de tudo. E a tal do ensinamento? Hoje é sobre força interior, e que é possível mover montanhas.

“Meu nome é Cíntia*, sou uma travesti de 25 anos. Minha história começa aos meus 7 anos, quando morava no interior. Meu pai trabalhava numa empresa de frete. Um dia ele foi fazer uma viagem para a Capital e deu carona para um ‘perdido’ na estrada. Foi o erro de sua vida. O cara anunciou o assalto. Meu pai desviou o percurso e foi parar numa fazenda pertinho de Campo Grande. O bandido pediu dinheiro pro resgate, que nós não tínhamos – e a empresa não quis ajudar. Meu pai ficou três dias preso num poste, vendado, sem comer nada nem beber água. A caminhonete foi levada para desmanche no Paraguai. Já que o dinheiro solicitado não foi entregue, mataram meu pai com um tiro na cabeça e jogaram seu corpo num lixão. Foi encontrado 4 dias depois por mendigos. Essa não é a única dor de minha vida, mas é o meu maior trauma, sabe? Nisso eu ainda não superei.

Após a morte de meu pai, minha mãe arranjou um macho e se mudou para a fazenda com minhas irmãs. Eu fiquei na cidade com minha tia e irmão mais velho para estudar. Teve um dia que meu padrasto disse pagar umas contas aqui, mas na verdade deu a escapada. Sabe aquelas festas de interior que duram o final de semana todo? Ele foi em uma e voltou acabado e com um olho roxo do marido de uma mulher casada que ele ficou dando papinho. Mas ele foi lá de novo para se vingar. Pegou uma arma e atirou no cara que o tinha espancado.

Foi um inferno. Minha mãe teve que colocar a casa pra vender a preço de banana só para pagar advogado para o traste. Pensando em retaliação, a família do falecido começou a ameaçar a minha. Fomos embora. Eu tinha 15 anos.

Aos 17 assumi ser gay para minha família. Minha mãe achava que fosse influência das amizades que eu tinha. Naquela época, duas amigas também saíram do armário e acabaram virando – como hoje eu sou – trans. De qualquer maneira, minha mãe me apoiou, sempre estando ao meu lado nos melhores e piores momentos da minha vida.

Eu já estava morando sozinha com uma amiga. Ficamos desempregadas juntas quando trabalhávamos na fábrica da Seara. Sem ter o que fazer, ela foi a primeira a se jogar no mundo da prostituição em Campo Grande. Esperei minha irmã ter bebê, peguei o restinho de dinheiro que eu tinha e fui embora também, afinal, era minha última opção.

Foi quando eu conheci a tal da Bruna Toro, uma travesti que – como o nome bem dizia – era tão forte e bruta quanto o animal. E barra pesada, já que estava de quebra de colônia da polícia por ser traficante. Ela começou a me bater e roubar, mexer no meu celular, bolsa, dinheiro a ponto de eu não conseguir me manter. Fiz boletim de ocorrência. A verdade é que fizeram pouco caso de mim, porque na cabeça da polícia era como se fosse mais uma rixa entre travestis. As agressões e extorsões só pioravam. Teve um dia que uma amiga veio me ajudar, mas nós duas começamos a apanhar dela. A Toro era realmente muito forte. Corri e gritei pela polícia, justamente porque eu sabia que Bruna estava foragida. Ela caiu fora, sem antes nos avisar que voltaria para encerrar o assunto.

Ela realmente voltou, desta vez com uma faca em mãos. Minhas amigas vieram ao meu socorro. Quando chegaram, eu estava tentando me salvar, segurando a mão da Bruna para não me ferir. Elas todas pegaram o que acharam na hora, pau, pedra, enfim, e começaram a tacar nela. Ela deu uma escorregada e eu consegui pegar o canivete. Não mirei as canivetadas nela por mal, só queria que ela saísse de cima de mim. Foi para me defender. Ela ficou fraca, e todas nós pulamos fora. Eu não imaginaria que ela viria a morrer. Tanto que eu voltei pra cafetina, tomei um banho e ainda fiz dinheiro naquela noite. Mas no dia seguinte, a polícia já estava no nosso pé.

Acabamos sendo presas em flagrante. Ficamos quatro dias na cadeia e só depois transferidas para o presídio penal masculino, na ala das travestis. Achei que fosse sair dali em um mês, e jamais daria o desgosto a minha mãe de saber que a filha estava presa. Mesmo assim ela acabou descobrindo. Veio para Campo Grande, ficou ao meu lado, fez tudo o que estava ao seu alcance. Pagou um advogado que me conseguiu liberdade provisória.

Quando presa, achei que realmente seria morta. Mas o pessoal da barrada pesada, de poder maior – e que obviamente não era a polícia – disse que não ficariam ‘cobrando ficha’, porque ‘problema de rua se resolvia na rua’. Lá dentro, era pra gente ficar de boa.

Minha última audiência foi dois anos depois do acontecido. Acabei sendo inocentada em unanimidade pelo júri popular. Eu tinha todas as provas de que realmente havia pedido ajuda para polícia antes, os boletins, os telefonemas e tudo mais, que eu estava “jurada” de morte pela Bruna Toro. E não apenas eu…”

Violações – “Antes desse acontecido todo, eu tive a experiência de ser estuprada. Meu ponto era ali na avenida Costa e Silva. Eu tinha acabado de começar a me prostituir. Apareceu um cara de moto e escolheu exclusivamente a mim. Ele só tinha o dinheiro do programa, e não do motel. Falei que sabia de um lugar que ninguém iria nos incomodar. Fui andando, e ele sem tirar o capacete. Sacou uma pistola com silenciador e obrigou a eu entregar a bolsa. Não tinha dinheiro, até porque ele seria o meu primeiro programa da noite. Jogou tudo no chão, me empurrou numa parede e me comeu a força. Quando finalizou, mandou eu ajoelhar e pedir perdão a todos os meus pecados, isso com a arma encostada na minha cabeça. Pensei: ‘é assim que será o meu fim?’. Ele falou que tinha três balas, e que iria testar a sorte. Apertou uma, duas, e na terceira me deu uma coronhada. Acordei achando que tinha morrido, voltei pra casa, tomei um banho e ainda fiz programa. Era minha única forma de sobrevivência.

O que eu tirei de aprendizado com tudo isso? Que coisas ruins podem sim acontecer com pessoas boas, mas acho que para fortalecê-las, prepará-las para o que vier ainda nessa vida. E eu me sinto preparada, tiro aos poucos os pesos da minha balança. Tudo isso que eu vivi faz eu não julgar a dor do outro. Coisas ruins acontecem, pessoas ruins existem. Hoje, sou uma pessoa totalmente diferente do que eu era. Minha família inteira me vê enquanto pessoa de forte inspiração – e o melhor de tudo é que minha mãe me ama incondicionalmente. Se eu ficar olhando apenas para o mal que vivi na vida, é só ele quem estará a olhar de volta pra mim”.

*Cíntia é um nome fictício criado pela redação para preservar a identidade da personagem e também de terceiros.

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