Coxim, MS
16 de setembro de 2020
Plantão
67 9 9659 6042

Pantanal

Li a respeito dos incêndios no Pantanal. Vi uma onça com as patas queimadas e chorei. Lembrei que em 2016 vi uma grande onça com 2 lindos filhotes, que estavam brincando na margem. Pensei que poderia ser um dos filhotes, agora adulto, que havia sido queimado…

Nos últimos 42 anos acompanhei a devastação do Pantanal, mercê do descaso dos governos e da falta de consciência da população. Escrevi nesse Jornal “Pantanal – O Moribundo” (14/09/2016).

A primeira vez que estive no Pantanal foi em 1978, na cidade de Miranda (MS). Hospedei-me no centro da cidade. Havia fartura de peixes: dourados, pintados, jaús. O Pantanal exalava vida. Voltei algumas vezes, mas não havia mais peixes. A floresta fora engolida pela ganância.

Em 1984 fui a Coxim (MS). Na ocasião percebi que o Pantanal estava gravemente ferido. O rio Taquari havia sido assoreado, por causa da agricultura. Na cidade, vários frigoríficos promoviam a mortandade de peixes, para abastecer os mercados do sudeste.

Depois, foi a cidade de Corumbá(MS). Cuja natureza foi muito maltratada. A cada ida, era preciso navegar mais longe para encontrar natureza intocada.

Nos últimos dez anos fui várias vezes no Hotel Porto Jofre Pantanal Norte, que dista 120 quilômetros da cidade de Poconé (MT), pela “Transpantaneira”, sem pavimentação. Em 2015 fiquei chocado com o descaso governamental. Saindo de Poconé, em direção ao Porto Jofre, havia um posto de fiscalização abandonado. Cruzei com centenas de caminhões frigoríficos, transportando peixes, ilegalmente abatidos. Todas as vezes que lá estive (cerca de 8) avistei onças, jacarés, sucuris… Bichos raros (ou extintos) por lá são os fiscais do Ibama ou do Instituto Chico Mendes. Nunca vi nenhum.

Mas não só os governantes que maltratam o Pantanal. A população também. Até mesmo quem nunca foi. Nas vezes que mostrei fotografias de peixes para os amigos, ouvi os seguintes comentários: “Isso na panela”; “não trouxe nenhum para mim”. Cansei de responder que pratico pesca esportiva e solto os peixes capturados.

Quanto à devastação do Pantanal pergunto: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (João 8,7).

Estou pensando em pedir para minha família, quando terminar meu tempo, para jogar minhas cinzas no Rio Cuiabá, mas espero que elas não se misturem com as cinzas do Pantanal.

“Tomara que chova logo. Tomara meu Deus tomara” (Luiz Gonzaga).

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo

print

Comments

comments