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25 de maio de 2020
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Madri prevê a maior crise alimentar desde o fim da Guerra Civil

Funcionários montam e fazem a limpeza de mesas de um restaurante no centro de Madri. FOTO: JAIME VILLANUEVA

Em 20 de dezembro de 2019, o Instituto Nacional de Estatística da Espanha (INE) publicou um dado histórico na Espanha: Madri havia superado a Catalunha como a principal economia regional. Uma ultrapassagem de proporções maiúsculas, que só ocorrera antes em 2012 e 2013. A região onde fica a capital espanhola começava 2020 da melhor maneira possível, respondendo por 19% do PIB nacional: 230,8 bilhões de euros (1,39 trilhão de reais). O veleiro da capital ia de vento em popa. Madri era de novo o motor da Espanha.

Quatro meses depois, a região arranca de novo com o barco no meio de uma tempestade de proporções incalculáveis: 400.000 desempregados, 50.000 autônomos sem saber quando voltarão à rotina de três meses atrás e uma crise social que, segundo dados da Prefeitura da capital, prevê a maior crise alimentar desde o fim da Guerra Civil espanhola, em 1939. Pelo menos 101.942 cidadãos recebem diariamente uma sacola com mantimentos, segundo a Federação Regional de Associações de Moradores da capital.

Madri foi e é o epicentro da pandemia de coronavírus na Espanha em nível sanitário, político e social. Aqui começou a expansão do vírus pelo país, aqui surgiram os protestos contra o Governo, e aqui se iniciaram as filas da fome. O balanço é dilacerador. O bichinho abstrato deixou uma região abatida, com mais de 67.000 casos confirmados e 8.907 falecidos em hospitais até o momento. E antes de abrir as porta à fase 1 do desconfinamento, a partir desta segunda-feira, o Colégio de Médicos (conselho profissional) alerta: “Continua nos preocupando que o sistema sanitário madrilenho não possa assumir um novo recrudescimento”.

Foram dois meses caóticos tanto no aspecto político como no econômico. O alívio das medidas de restrição começou na segunda-feira passada, com a chamada fase 0,5, uma etapa que nem sequer estava prevista no manual da desescalada do Governo espanhol. A decisão foi precedida pelos gritos de socorro em lugares como a Puerta del Sol, o marco zero da capital, e o palácio de La Moncloa, sede do Executivo: “É preciso abrir a economia como for”. O objetivo era fechar o quanto antes a gigantesca ferida econômica. Nesta segunda-feira, as consequências começarão a ser conhecidas.

“Com a fase 1 só abriremos entre 10% e 15% dos negócios. Nem todos têm mesas externas”, conta Tomás Gutiérrez, presidente da associação madrilenha dos empresários de hotelaria e restauração. Um em cada cinco estabelecimentos da capital estão relacionados com esse setor. Dos 19.137 bares, restaurantes e hotéis, calcula-se que quase 3.500 não reabrirão mais. “Sobretudo os menores.” Gutiérrez acredita que a recuperação, se vier, será em setembro. “E falta ver como o cliente reage.” Cerca de 120.000 famílias madrilenhas viviam deste setor até março.

O desemprego já havia subido em fevereiro na região. Segundo dados oficiais, 2.147 cidadãos se inscreveram nas listas de procura de emprego. Em março a cifra se multiplicou por cinco, e em abril por vinte. Há mais de 400.000 desempregados, sem contar os que estão com pagamentos parcialmente suspensos, sob um mecanismo chamado processo de regulação temporária de emprego (ERTE, na sigla em espanhol). Com a entrada na fase 1, o Governo regional espera “recuperar entre 35.000 e 55.000 empregos de pessoas que hoje se encontram no ERTE”, segundo o Conselheiro de Economia, Emprego e Competitividade da Comunidade de Madri, Manuel Giménez.

O empresário Juan Francisco Miguel, de 32 anos, abrirá sua produtora DrCerebrus nesta segunda-feira após mais de 60 dias. “Tinha 11 funcionários contratados em fevereiro e só cinco voltarão. Perdemos muitas filmagens.” Ele é um dos 50.000 autônomos da região que continuarão fazendo malabarismos nas contas.

O mesmo ocorre com o setor turístico. Madri é a capital europeia com mais gasto médio por turista, com 355 euros (2.141 reais) por dia, segundo dados do portal Hosteltur. Sem o habitual ruído das malas pelas ruas até julho – a região recebeu 11 milhões de turistas em 2019 –, a Comunidade já prepara uma guinada no setor. “A prioridade agora será o turismo interno”, anunciou a presidenta regional, Isabel Díaz Ayuso, na sexta-feira, sem dar detalhes.

As mudanças também serão notadas na mobilidade, embora se mantenham as faixas horárias. Veem-se mais bicicletas que nunca, mas não se prevê um modelo local que reforce este modal. O principal problema, segundo o Consórcio Geral de Transportes, será a gestão do metrô nos horários de pico. Em condições normais, são três horas de maior movimento: das 8h às 9h, das 14h às 15h e das 18h às 19h. Durante o confinamento, só houve uma faixa com aumento de viajantes diários, a das 14h, mas o consórcio espera que voltem os três picos de tráfego à medida que a desescalada avançar.

Com tudo isto, e apesar de tudo, Madri levantará as persianas na segunda-feira com o objetivo de liderar a recuperação econômica na Espanha. Não está prevista a passagem a uma nova fase nas duas semanas seguintes. E enquanto isso? Reabrirão os hotéis sem zonas comuns, visitas em casa só com até 10 amigos, os velórios poderão receber 10 familiares, e os teatros e cinemas até 30% da ocupação. O motor econômico arranca de novo, e quase três meses depois, em marcha lenta.

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