Coxim, MS
1 de março de 2020
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Presença no celular significa a ausência de uma mãe: tô tentando largar o vício

Existe uma tela entre nós. Entre mãe e crianças que impede o olho no olho e o estar ali.

Mais do que estar presente, ser presente em casa tem sido um dos grandes desafios para mim. Eu tenho 30 anos, sou jornalista, casada, mãe de dois e viciada em celular. A verdade é que esse vício não é de hoje, só ficou mais evidente quando vejo que a brincadeira preferida do meu filho é mexer no celular e “trabaiá” no seu notebook da Fisher Price. Ele apenas imita o que vê em casa.

A ficha vem caindo aos poucos sobre a gravidade da minha conexão com a tecnologia quando me pego “escondida” mexendo ao celular como se tivesse cometendo um delito. Isso porque prometi me afastar da tela a hora que chego em casa.

O que ferramentas e aplicativos fizeram comigo foi me tornar refém de algo que eu sempre pratiquei: a curiosidade. Acho que na tentativa de ver tudo, saber de tudo e ouvir de tudo, a gente fica on-line 24h por dia. E não é só por conta do trabalho.

Este texto é mais uma daquelas reflexões que eu, ao colocar no papel, quero firmar um compromisso para 2020 (já que o ano só começa mesmo depois do Carnaval), o de passar menos tempo no celular. Existem inúmeros artigos, dados e campanhas na tentativa de conscientizar o brasileiro sobre as horas gastas com os olhos vidrados às telas. Mas aqui eu não preciso deles para “provar” que isso é fato.

Na clínica onde minha menina faz fisioterapia, por exemplo, os pais ficam o tempo todo com os olhos nos celulares, eu me incluo nessa, em vez de comemorar cada passo dado no exercício. No trânsito, a pressa em responder aquele WhatsApp é maior do que a de perguntar como foi o dia das crianças, embora eles ainda não falem.

Boa parte das “artes” do meu menino estão gravadas, e sabe por que? Porque eu sempre estou com o celular em mãos e aquilo que vejo como “arte” deve ser só um jeito dele chamar a minha atenção.

Gostaria de lembrar das bagunças das crianças pela minha própria memória, não pelas lembranças de Facebook, Instagram ou Google Fotos. Quero ver os sorrisos com meus próprios olhos e não através das câmeras.

Mais uma vez o que escrevo aqui não é novidade para ninguém. E, certamente, traz consequências graves para o emocional dos pequenos. A presença no celular significa a ausência de uma mãe. Deveríamos ser punidos, não só pela culpa. Afinal, creio que este deve ser um dos tipos mais comuns de abandono afetivo praticado dentro de casa, diante dos filhos.

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