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18 de janeiro de 2020
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Por que usar dinheiro vivo é uma forma de gastar menos

A China inventou o papel moeda. Foto: Getty Images

Lembro que, quando era menino, guardava meus trocados em uma gaveta especial, as moedas douradas de libras formavam uma pilha precisa. (Embora a pilha nunca ficasse tão grande que prejudicasse a estrutura). Cresci em Hastings, uma pequena cidade costeira em East Sussex (Inglaterra), famosa pela conquista dos normandos (em 1066) e pelo charme litorâneo. Ela tem fama de ser um pouco decadente e está sempre se revitalizando.

Ganhei meu primeiro cartão de débito quando tinha 14 anos. Guardei dinheiro para um ano sabático trabalhando em um bingo, e pus o dinheiro em uma conta poupança. Evitava cartões de crédito. Naquela época (2007), as taxas de rendimento giravam em torno de 5%, e me lembro de ganhar 70 libras (R$ 371) certo ano, o que me fez sentir muito rico.

Corta para 2018 e eu estava morando e trabalhando em Pequim, China, como um jornalista freelancer. Todos os moradores de Pequim em volta de mim pagavam tudo usando apenas seus celulares. Eles caminhavam até o balcão de um restaurante, comércio ou loja de conveniência, e mostravam um QR code para o caixa escanear.

Depois de escaneado, o sistema imediatamente debitava a quantia exata da carteira virtual do comprador. Sem ter de buscar dinheiro na carteira nem esperar por troco. Sem ter de passar um cartão de plástico. A transação levava segundos.

Mas eu era teimoso. Meus amigos, tanto ocidentais quanto chineses, tiravam sarro de mim por ser tão tradicional — por manusear “notas sujas” — vendo o dinheiro amassado como prova de minha revolta contra a tecnologia.

Mas havia algumas razões pelas quais eu continuava usando dinheiro físico e evitava transações virtuais. Primeiro, eu me sentia mais seguro. Não entendia bem como o dinheiro eletrônico funcionaria no meu smartphone e temia que ele pudesse ser facilmente desviado.

Em segundo lugar, temia que, ao migrar para pagamentos eletrônicos e perder a inconveniência de pagar com dinheiro, eu acabaria gastando mais. Tinha medo de que ao perder as qualidades tangíveis e visíveis do papel moeda, e a transação física — de pescar minha carteira, encontrar as notas requeridas, e entregar o dinheiro — eu estaria perdendo o senso de quanto, a cada dia, eu estaria gastando.

Esses temores eram justificados? Conforme mais e mais pessoas ao redor do mundo evitam dinheiro em papel, essas são questões essenciais a se considerar.

Antes de entrarmos no universo complicado da psicologia do consumidor, e no conflito entre a economia clássica e a psicologia que levou ao nascimento da economia comportamental, vamos primeiro avaliar o que exatamente é o dinheiro.

Dinheiro é um conceito abstrato — e hoje nós o damos de barato, sem considerar como um pedaço de papel, ou pedaços de metal, têm valor intrínseco. Mas o dinheiro é uma invenção relativamente recente, e representou uma mudança fundamental na sociedade humana, diz Natacha Postel-Vinay, que leciona um curso sobre a história do dinheiro e das finanças na London School of Economics.

“Era algo completamente diferente do escambo”, diz ela. “Você não precisa de uma correspondência exata entre duas pessoas e seus desejos. Se quisesse comprar pão, o vendedor não precisava receber algo específico de você, seu casaco ou o vegetal da sua horta. Você só precisava de um pouco de prata.”

Em termos técnicos, o dinheiro é uma reserva de valor e deve ser um item contábil, o que significa simplesmente que deve ser um item padronizado (como uma moeda).

O primeiro registro do uso de dinheiro vem dos antigos Iraque e Síria, na civilização babilônica, por volta de 3 mil a.C. Nos tempos babilônicos, as pessoas usavam pedaços de prata que eram medidos conforme uma unidade de peso conhecida como shekel. Vêm da Babilônia os registros dos primeiros preços, anotados por sacerdotes do Templo de Marduk, assim como os primeiros contadores e as primeiras dívidas.

Na Babilônia, tínhamos muitas das coisas essenciais para uma economia monetária. Isso incluía o fato de que a prata tinha sua pureza regularmente testada e era uma força estabilizante, como um rei ou um governo, em que as pessoas podiam confiar para garantir o valor do dinheiro. “Em todos os tempos, para que o dinheiro tivesse valor, a confiança foi necessária”, diz Postel-Vinay.

Mas houve muitas mudanças no dinheiro ao longo do caminho. A Babilônia tinha dinheiro, mas ele ainda era volumoso e precisava ser pesado — não era tão avançado quanto moedas. A partir de por volta do ano 1000 a.C., outras civilizações passaram a usar metais preciosos e, na Grécia antiga, no reino de Lídia, as primeiras moedas foram fabricadas.

As primeiras notas de dinheiro foram usadas na China Imperial durante a dinastia Tang (618-907 d.C.) e eram notas de crédito produzidas privadamente ou notas de câmbio, mas a Europa só adotaria a ideia no século 17.

Hoje, o dinheiro não está atrelado a objetos físicos que são eles próprios commodities com valor, como moedas de ouro ou prata, mas usamos uma forma chamada moeda fiduciária, que é uma moeda que um governo estabeleceu como legal.

O conceito de crétido (e débito) existia muito antes da invenção de cartões de crédito. “Não precisa ser físico para ser dinheiro”, explica Postel-Vinay.

O cartão de crédito emitido por bancos foi inventado por John Biggins, do Flatbush National Bank, no Brooklyn, em Nova York, em 1946. Posteriormente, ofereceram-se cartões de crédito a vendedores viajantes, para que os usassem na estrada, nos EUA. No Reino Unido, a Barclays produziu o primeiro cartão de crédito britânico em 29 de junho de 1966.

O primeiro cartão de débito surgiu no Reino Unido em 1987. Chips e senhas foram introduzidos em 2003, e cartões de crédito que funcionam por aproximação foram lançados quatro anos depois.

Na China, enquanto isso, escanear QR codes com o celular, ou gerar QR codes no celular para que sejam escaneados por comerciantes, tornou-se um meio comum para fazer pagamentos. A rápida adoção de pagamentos eletrônicos na China se explica pelo alcance do aplicativo WeChat no país, que inclui serviços de pagamento virtual, mensagens e funções de mídias sociais; pela popularidade de plataformas de comércio virtual, como a Taobao, da Alibaba; e pelo fato de que a China tem baixos índices de uso de cartão de crédito.

A partir de 2015, a adoção de pagamentos eletrônicos em transações do dia a dia se tornou muito mais predominante.

Países que têm os maiores índices de compras sem dinheiro vivo incluem o Canadá, onde é comum que cada pessoa tenha mais de dois cartões de crédito. Na Europa, a Suécia é a sociedade que menos usa dinheiro em papel: apenas 13% dos suecos disseram ter usado dinheiro em compras recentes, segundo uma pesquisa nacional feita no ano passado. Em 2010, o índice era de 40%. Em comparação, cerca de 70% dos americanos ainda usam dinheiro semanalmente, segundo um estudo recente do Pew Research Center.

Emelie Svensson, uma sueca que trabalha como jornalista em Nova York, diz que os dois países são muito diferentes quanto ao uso de dinheiro. “O sistema gira em torno de gorgetas e muitas lojas nem aceitam cartões, ou a compra deve ser de no mínimo 10 dólares”, ela diz, referindo-se à experiência de morar nos EUA. “Mas está melhorand. Há cinco anos, eu pagava meu aluguel com dinheiro vivo!”

E embora o uso de pagamentos sem dinheiro vivo esteja aumentando no Reino Unido, ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Para Moa Carlsson, uma açougueira de 20 anos de Gotemburgo, o país tem uma postura pálida quando comparado à sua Suécia nativa.

“Acho que é um pouco divertido e de certa forma quase estranho usar dinheiro vivo”, ela diz, quando visita o Reino Unido. “A Inglaterra parece mais antiquada. Me sentiria quase estranha ao não usar dinheiro lá. Acho que a libra é uma parte grande da Inglaterra, muito mais do que a coroa para a Suécia.”

Para pessoas que vivem em sociedades que usam cada vez menos dinheiro em espécie, os benefícios de pagamentos eletrônicos são óbvios. “É muito conveniente. Você não tem a sensação de guardar 200 libras no bolso ou (a chateação) de ter de sacar dinheiro. ‘Onde está o caixa eletrônico?’ Está ali no seu bolso”, diz William Vanbergen, um empreendedor britânico que chegou à China em 2003 e demorou a aderir a pagamentos eletrônicos.

Como Carlsson, ele diz que lidar com dinheiro vivo parece antiquado. Quando Vanbergen viaja a trabalho a Hong Kong, onde o dinheiro em espécie ainda é o método de pagamento mais comum, ou à Inglaterra, ele diz se sentir como se voltasse no tempo.

Mas e as desvantagens? Será que pagar sem usar dinheiro físico faz com que as pessoas gastem mais?

Essa é uma questão complicada e pressupõe que humanos sejam criaturas irracionais em vários sentidos. Por exemplo, foi mostrado que as pessoas sentem mais dor quando perdem 100 libras do que sentem alegria ao ganhar a mesma quantia. Em outras palavras, a dor da perda machuca mais, embora as duas quantias sejam idênticas.

Esse tipo de efeito psicológico alimentou grandes mudanças no campo da economia. No passado, na economia clássica, acadêmicos baseavam suas teorias na suposição de que as pessoas se comportavam racionalmente (de modo que a perda ou ganho de uma quantia igual seriam tratados de forma idêntica por um indivíduo). Mas isso se mostrou falso a partir de estudos psicológicos, levando à criação da economia comportamental e sub-ramos como a psicologia do consumidor.

Um dos grandes pesquisadores dessa disciplina relativamente nova é Drazen Prelec. O professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos EUA) fez um estudo sobre um leilão silencioso. O leilão foi feito entre estudantes da prestigiada escola de negócios Sloan e envolvia ingressos para jogos esgotados da NBA, a liga americana de basquete. Os pesquisadores disseram a metade dos participantes que eles só poderiam pagar com dinheiro vivo, enquanto os outros só poderiam pagar com um cartão de crédito.

Os resultados supreeenderam os pesquisadores. Na média, descobriu-se que os que usavam cartão de crédito faziam duas vezes mais lances que os usuários de dinheiro vivo. Isso significa, segundo Prelec, que o custo psicológico de gastar um dólar no cartão de crédito é de apenas 50 centavos.

Comprar com cartão de crédito tem claramente impactos na forma como as pessoas gastam, conforme atestado por muitos estudos. Porém, também revelou-se que as contas de cartão de crédito, quando chegam, causam imensa dor ao receptário. Tanto é assim que economistas comportamentais acreditam que isso explica a manutenção da popularidade dos cartões de débito.

Mas e quanto ao uso de carteiras eletrônicas (e-wallets)? O que importa aqui é o retorno, diz Emir Efendic, pós-doutor em Psicologia e Economia Comportamental na Universidade de Louvain, na Bélgica. “Com cartões de crédito, você não recebe atualizações instantâneas (sobre as compras). Mas com bancos online, você vê a quantia sendo debitada imediatamente”, diz Efendic.

“Se você perde os retornos, então sim, você gastará mais”.

Com cartões de crédito, a dor do gasto é atrasada (até que chegue a conta mensal). A grande habilidade dos cartões de crédito, em outras palavras, é que eles têm o poder psicológico de separar o prazer da compra da dor do pagamento.

Mas, com carteiras eletrônicas, usuários veem o dinheiro debitado imediatamente. Emily Belton, trabalhadora expatriada britânica que usa o WeChat em Pequim, diz que gosta de receber uma notificação a cada vez que faz um pagamento pelo app, e que seu saldo é atualizado em tempo real. Isso é uma comunicação instantânea e não implica o mesmo efeito que um cartão de crédito.

Prelec, porém, descobriu que caminhos neurais são acionados pelo que ele chama de “momento vacilante”, quase como uma breve dor física, quando nos separamos de nosso dinheiro. Embora não haja pesquisa semelhante sobre o uso de e-wallets, pode-se presumir que o momento vacilante não ocorra quando pagamos com um smartphone. Mas isso precisa ser mais pesquisado.

A dor de se separar do nosso dinheiro impede que gastemos além da conta, mas o aspecto negativo é que ela também rouba parte da alegria de consumir. O custo psicológico, que Prelec chama de “imposto moral”, pode ser reduzido de várias formas. Instrumentos como o empacotamento (a inclusão de itens gratuitos na compra de um produto) pode reduzir parte do “imposto moral”. O pagamento antecipado é outro método, mesmo quando não há vantagem financeira — por exemplo, as pessoas têm mostrado preferir pagar as férias em parcelas (ainda que estejam perdendo parte da liquidez em dinheiro vivo).

E, quando estão no exterior, as pessoas também acham mais fácil gastar com moeda estrangeira, tratando-a com muito menos seriedade do que o “dinheiro real” de seu país natal. Empresas como o Club Med se valem dessa psicologia ao definir que seus hóspedes comprem fichas de plástico em vez de usar dinheiro.

No meu caso, acabei adotando o uso de pagamentos virtuais em Pequim. Achei o sistema impressionante por sua qualidade e conveniência. É como viver num mundo onde você tem todos os benefícios de gastar sem a dor de pagar.

Talvez isso seja melhor para as economias, que podem se beneficiar se as pessoas gastarem seu dinheiro mais livremente, e muitos governos no mundo estão tentando estimular isso. Há um velho ditado inglês que diz: “O dinheiro, como o estrume, não faz nenhum bem até que seja espalhado”. Mas, às vezes, esse tipo de gasto livre, sem qualquer fricção, leva a um tipo de desconforto.

Talvez esse seja o “imposto moral” a que Drazen Prelec se refere, o que é uma tendência psicológica de sentir o custo de oportunidade como dor real. Em outras palavras, posso estar sentindo esse desconforto por imaginar que poderia gastar aquele dinheiro com outras coisas.

Conforme mais sociedades migram do dinheiro em espécie para as transações virtuais, a forma como gastamos pode mudar. Mas o dinheiro continuará sendo uma força governante nas vidas humanas.

Weird West

Este artigo é parte da nossa série Weird West. Em 2010, uma equipe na Universidade de British Columbia (Canadá) indicou que a pesquisa psicológica contém uma grande falha: boa parte dela se baseia em exemplos de sociedades ocidentais, escolarizadas, industrializadas, ricas e democráticas (as iniciais das palavras em inglês formam o acrônimo “Weird”, que batiza a série e significa “estranho” em inglês). Os pesquisadores costumavam supor que seus achados se aplicariam a pessoas de qualquer lugar. Mas, quando analisou o tema, a equipe descobriu que membros das sociedades “Weird” eram, na verdade, as populações menos representativas que alguém poderia usar para fazer generalizações sobre humanos.

Da grande imprensa à academia, porém, continua normal ver as sociedades “Weird” como normais, ou ao menos como o padrão pelo qual outras culturas e povos são julgados. Nesta série, mergulhamos nos efeitos disso na vida cotidiana. Que hábitos e formas de pensar são comuns em sociedades Weird que as pessoas de outras partes do mundo podem achar estranhas?

E o que isso nos diz não só sobre diferenças culturais, mas sobre nós mesmos? Da hora em que tomamos banho à forma como compramos, esta série reexamina os comportamentos que muitas vezes damos de barato — e explora como o “padrão” é raramente o melhor ou único caminho.

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