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15 de novembro de 2019
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Proclamação da República: como foi a última festa de arromba da monarquia, regada a champanhe, foie-gras e música até o sol raiar

Direito de imagemRIBEIRO, A./BIBLIOTECA NACIONAL

Corre em livros de História a seguinte anedota sobre o então imperador Dom Pedro 2º: ao chegar ao baile que veio a ser o último do seu reinado e da monarquia, no dia 9 de novembro de 1889, tropeçou ao entrar no salão. Ao se reerguer, disse, brincando: “a monarquia tropeça, mas não cai”.

Não se sabe se a cena de fato aconteceu, mas ela se tornou uma metáfora perfeita daquele momento. A monarquia caiu menos de uma semana depois, com a proclamação da República, data comemorada nesta sexta-feira (15/11).

O baile da Ilha Fiscal, o último e o maior do período imperial, se tornou tão emblemático que virou quase uma expressão idiomática — é evocado quando se quer descrever uma grande celebração antes de um fim.

Como um baile entra para a História? O que ele teve a ver com o fim da monarquia? O que de fato aconteceu naquela noite?

A BBC News Brasil ouviu pesquisadores e leu relatos para responder a essas perguntas.

O que estava acontecendo na política naquele momento?

O baile da Ilha Fiscal foi o ápice da chamadas “festas chilenas”. No ano de 1889, durante dois meses, as autoridades brasileiras recepcionaram oficiais do navio chileno Almirante Cochrane, que visitavam o país em viagem diplomática.

Foram dias e dias de jantares, passeios turísticos às montanhas, corridas de cavalo e regatas — “um nunca acabar de festas”, como descreveu um cronista — que mobilizaram a elite carioca.

O baile seria o mais opulento desses eventos. De acordo com um dos artigos do livro Festas Chilenas (EdiPUCRS, 2014), só o banquete custou 250 contos de Réis, quase 10% do orçamento da Província do Rio.

A imprensa fez uma farta cobertura, em grande parte de forma crítica, do evento. “O baile aconteceu muito nos jornais”, diz Claudia Beatriz Heynemann, pesquisadora do Arquivo Nacional e organizadora do livro Festas Chilenas junto com Jurandir Malerba e Maria do Carmo Rainho.

“O peso do baile está nesse esgarçamento da opinião pública. Nesse sentido teve um efeito negativo”, diz Malerba.

Os veículos de comunicação descreviam diariamente os eventos e os preparativos para as festas, e os republicanos questionavam e ironizavam os luxos e gastos.

Naquele momento, os movimentos que se tornaram favoráveis à República já corriam fortes, diz Angela Alonso, professora associada do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap, autora de livros e ensaios sobre a República.

Uma série de crises se acumulavam. “A questão não era se a monarquia ia cair, era quando”, diz ela, e começa a listar alguns fatores: desde 1888, o Partido Republicano já tinha representação forte em vários Estados; havia um grupo considerável de pessoas da elite urbana e latifundiários que queriam mais representação política; ao mesmo tempo, os militares, que haviam vencido a Guerra do Paraguai, queriam mais espaço, e ficavam cada vez mais insubordinados. Finalmente, diz a pesquisadora, o programa do chefe do governo, o visconde de Ouro Preto não enfrentava esses problemas com eficácia.

Para piorar ainda mais a situação da monarquia, o último gabinete ministerial havia sofrido uma série de acusações de corrupção, conta Alonso. Por causa disso, opina a professora, a opulência das festas organizadas para os chilenos caiu especialmente mal na imagem pública do governo.

Enquanto a elite passeava com os chilenos, já acontecia a articulação entre militares e civis republicanos que levaria à deposição de Dom Pedro, diz o historiador Jurandir Malerba.

No livro Castelo de Papel (Rocco, 2013), Mary Del Priore diz que num jantar para os chilenos no palácio do príncipe Pedro Augusto, neto de Dom Pedro 2º, a monarquia estava “cercada por aqueles que apostavam na sua sucessão”. “No cardápio, faisão trufado, foie-gras e costeletas de pombo à Pompadour.”

Por que fizeram a festa?

Se a situação política já estava hostil, por que dedicaram tanta energia à realização da festa? Para Alonso, a celebração era, na verdade, parte de uma tentativa de legitimar a princesa Isabel, filha de Dom Pedro 2º, como futura imperatriz, perspectiva que não era nem de longe um consenso, de acordo com a professora.

Dom Pedro 2º tinha mais de 60 anos, estava doente e já havia inclusive recebido extrema-unção, ritual católico em que aplica-se óleo consagrado na pessoa enferma, geralmente terminal.

“O baile não acontece sozinho”, diz Alonso. Ela conta que, pouco antes das festas chilenas, o marido de Isabel, o conde d’Eu, viajara pelo país em campanha pela monarquia.

Claudia Heynneman vê nos eventos também uma tentativa mais genérica de transmitir uma imagem de força da monarquia, que estava abalada com o movimento republicano.

Para Del Priore, a monarquia estava alienada naquele momento. “Os monarquistas olhavam para o trono como se ele fosse sustentado por forças invencíveis.”

Ela escreve que as festas inclusive mascararam as movimentações republicanas. “A multiplicidade de festas maquilou a insatisfação em curso, empurrando os chilenos para os salões onde se misturavam militares, civis, monarquistas e republicanos. As valsas e hinos nacionais abafavam as tensões. Mas elas estavam presentes. A agenda camuflava o jogo de interesses dos adversários da monarquia”, escreve a historiadora.

Como foi o baile da Ilha Fiscal

A última festa da monarquia foi também a maior que aconteceu nos 67 anos do Brasil Império.

“Depois de alguns anos festeiros, Dom Pedro 2º passou 30 anos sem dar festas, quando de repente concedeu aquele baile nababesco. Isso teve um valor simbólico. Alguns interpretam como ‘o canto do cisne’, o último suspiro do seu reinado”, diz Malerba.

O baile aconteceu na Ilha Fiscal, pequena ilha na Baía de Guanabara pertencente à Marinha. A construção na ilha também é chamada por alguns de “castelinho” devido ao seu estilo arquitetônico.

Os preparativos ocuparam as páginas dos jornais por semanas. Foram convidadas cerca de 3 mil pessoas, mas somaram-se a elas mais uns mil penetras, escreve o jornalista Laurentino Gomes no livro 1889 (Globo Livros, 2013).

Na lista estava toda a elite econômica e política, mas, segundo Alonso, alguns militares importantes não foram convidados.

A festa começava no cais, onde uma banda entretinha os convidados que esperavam para embarcar no barco que os levaria à ilha. Ali também se concentraram os excluídos da festa, curiosos por ver os convidados e assistir às queimas de fogos.

As milhares de lâmpadas e velas que iluminavam a ilha formavam um espetáculo descrito pelo narrador do romance Esaú e Jacó (1904), de Machado de Assis, como uma “cesta de luzes no meio da escuridão tranquila do mar”.

No início da noite, foi servido um banquete com uma enorme lista de pratos de ingredientes sofisticados e diversos tipos de vinho.

Aqui alguns números registrados no livro Festas Chilenas:

“Entre copeiros, trinchadores, cozinheiros e ajudantes foram mobilizados 300 funcionários. Registram-se 12 mil garrafas de vinho, champanhe e outras bebidas; 12 mil sorvetes; a mesma quantidade de taças de ponche, 500 pratos de doces variados. Serviram-se ainda 18 pavões, 80 perus, 300 galinhas, 350 frangos, 30 fiambres, 10 mil sandwiches, 18 mil frituras, mil peças de caça, 50 peixes, 100 línguas, 50 mayoneses e 25 cabeças de porco recheadas.”

Algumas horas depois do jantar, começou a dança. Cada salão ofereceria um tipo de música diferente. Seis bandas tocaram.

A festa acabou com o sol raiando. Para o deleite dos jornais dos dias seguintes, dizem os livros, durante a limpeza foram achados todo tipo de objetos, como peças íntimas de mulheres.

A família imperial chegou por volta das 21h. Dom Pedro 2º teria dançado uma só vez. Foram embora às 3h.

Como narraria o escritor Rodrigo Otávio, que na época tinha 23 anos, Dom Pedro 2º, “embevecido na maravilha daquela noite e no deslumbramento daquela festa (…), não imaginava que naquela mesma hora se estava concertando num pequeno sobrado (…) o trambolhão do Império e que os dias de seu reinado estavam contados”.

Líder da Proclamação da República assistiu ao baile de fora

Alguns livros, como o de Laurentino Gomes, contam uma história curiosa sobre aquela noite, narrada com base nos diários de uma das filhas de Benjamin Constant, um dos militares que arquitetaram a deposição de Dom Pedro.

Segundo o relato de Bernardina, então uma adolescente, Benjamin chegou em casa após uma reunião com militares e não encontrou sua família lá. Eles estavam na cais, assistindo ao embarque dos convidados do baile. Constant, então, contratou um pequeno barquinho e assistiu do mar, ao lado da família, aos acontecimentos daquela noite.

Qual foi o impacto do baile?

“Articular o baile em si, algo que faz parte da história factual, com a Proclamação da República, algo muito complexo, é complicado, mas ele teve um peso simbólico e está na crônica da época, registrado por Machado de Assis, Coelho Netto”, diz Malerba.

“Mais importante do que o baile em si foi o dia seguinte”, diz Claudia Heynneman. A pesquisadora conta que os jornais dedicaram várias edições a criticar o excesso de luxo.

Os gastos reforçaram a imagem da monarquia como uma instituição distante da sociedade.

“Até o fato de ele ter sido feito numa ilha, ou seja, longe da população, reforçava essa ideia”, diz Alonso.

Mas, para ela, “o fato de o baile ter acontecido logo antes do fim da monarquia foi uma casualidade” — os fatores que levaram à Proclamação da República já estavam postos.

“Ainda assim, ele é muito significativo porque foi uma representação da alienação da monarquia. Enquanto eles festejavam o país estava fervilhando”, diz Alonso.

“Depois do baile da ilha Fiscal”, escreve Del Priore, “um relógio invisível bateu as horas. Os últimos acordes da festa marcaram alegremente o enterro de um mundo do qual muitos não queriam mais ouvir falar. Os ponteiros da história empurraram o fim do império brasileiro. E anunciaram o início do que, se acreditou, fosse o ‘progresso'”.

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