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21 de outubro de 2019
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Como saber se sou bom de cama?

Diane Lane e Richard Gere em uma cena de ‘Infidelidade’. (CORDON PRESS)

O encontro foi bom e o beijo de despedida deixa entrever que os dois querem mais. É a primeira vez que irão dormir juntos e, mesmo sendo óbvio que já fizeram isso muitas outras vezes, toda primeira vez com alguém novo significa um ressurgir das borboletas no estômago. E não se trata de amor, e sim do nervosismo para que as coisas corram bem e não se estrague tudo por uma experiência ruim na cama. É verdade que os homens têm muita pressão na hora do sexo em cada nova relação: são obcecados com o tempo, tamanhos e até mesmo com o simples fato do nervosismo não trair sua ereção. Mas nos tempos de ‘comprar’ sexo no catálogo do Tinder, do uso maciço de pornografia e do medo de sofrer um ghosting sem nunca chegar a saber o motivo, também não é fácil para as mulheres.

Para começar porque nós mulheres cada vez falamos mais sobre sexo, ainda que entre amigos, e damos pistas do que consideramos um bom amante: que não seja egoísta, que se preocupe também por seu prazer, que tenha iniciativa, que não fique focado somente no ‘tira põe’, e que ao terminar não tenha pressa de ir correndo para casa ou adormeça. Mas, o que eles esperam de uma boa amante?

Se experimentarmos procurar nos debates do Reddit, em relação aos casais heterossexuais, parece que há uma palavra que se repete: “entusiasmo”. E que além de questões como ser hábil no sexo oral, parece que o que os homens levam em consideração é a atitude, mais do que a aptidão. Ver a outra pessoa sentir prazer às vezes pode ser o melhor afrodisíaco.

Uma questão de competitividade

A primeira coisa que deve ser colocada é por que, tanto homens como mulheres, estão tão obcecados com a questão de ser “bons na cama”. A experiência nos diz que as primeiras vezes não costumam ser boas, mas que com a prática e a comunicação tudo melhora. Temos, entretanto, a sensação de que só há uma oportunidade para demonstrar nossos dotes no amor antes de ser eliminados. De acordo com dados da Espanha em 2019, entretanto, 46% dos usuários do Tinder entram no aplicativo todos os dias, do que se deduz que a procura de novas parceiros e parceiras está sempre ativa, caso apareça algo melhor. “Vivemos em uma sociedade que fomenta muito a competitividade, o ser melhor do que os outros, o fato de que se você não está no topo não é ninguém e ninguém irá se interessar por você etc.”, diz o sexólogo Sergio Fosela.

Mas, o que é ser bom e boa de cama? De acordo com Fosela, a definição não precisa de muitos floreios: “Um bom e boa amante é aquele e aquela que te faz lembrar o encontro e provoca o desejo de repetir”.

A próxima dúvida é se homens e mulheres realmente têm a mesma opinião nesse conceito. “Acho que não é tanto questão de gênero e mais de crenças e educação”, diz o especialista, que esclarece que o problema dessa ideia é que continua fundamentada em falsos mitos, nas relações heteropatriarcais, e que a penetração, na verdade o pênis, é o mais importante. É por isso que continuamos escutando referências a “fazer felações como nenhuma outra” quando se valoriza a destreza de uma mulher na cama. Por sua vez, a também sexóloga Iris Martínez afirma que mesmo com a mudança de mentalidade, ser boa amante “se relaciona muitas vezes com ser liberada sexualmente, mas somente dentro da intimidade do casal”.

O mais satisfatório é imprevisível

Diante dessas ideias, é possível pensar que aquilo de que os homens gostam é, no fim das contas, o que veem na pornografia. Que esperam encontrar uma companheira ou um companheiro que reproduza as cenas bem conhecidas, e que quanto mais sujo, melhor. Talvez essa seja uma das fantasias mais típicas e excitantes, mas na hora da verdade, ser um bom ou uma boa amante não é imitar o que os atores e as atrizes pornô fazem. Pelo menos é o que dizem os especialistas.

Segundo um estudo sobre a exploração sexual nos EUA, realizado em 2015 com 975 homens e 1.046 mulheres, os comportamentos sexuais mais valorizados no companheiro ou na companheira, para ambos os sexos, foram os relacionados ao romance e ao afeto. Nesse sentido, os pesquisados citaram gestos como dizer coisas doces e românticas durante o sexo, beijar-se ou abraçar-se. Embora esses fossem os comportamentos mais “desejados”, a lista incluía outros, como a disposição para o sexo anal, dar e receber sexo oral, ver pornografia, praticar sexting, fazer sexo em grupo ou tirar a roupa e se masturbar diante da parceira ou do parceiro.

Outros estudos compilados por Michael Castleman na revista Psychology Today assinalam que, diferentemente do que se costuma pensar, os homens também valorizam que sua parceira ou seu parceiro dedique tempo para os mal chamados “jogos preliminares” (que muitas vezes podem ser não um jogo prévio, mas o grande protagonista ou a melhor conclusão da festa). “O ato sexual mais satisfatório não é linear, e sim deliciosamente imprevisível”, concluiu o especialista. Assim, saber improvisar e sair do roteiro também é uma qualidade particularmente valorizada.

Nas relações entre lésbicas, sair do coitocentrismo, ou seja, do habitual, é a chave. Assim, vale lembrar um relatório publicado na revista acadêmica Archives of Sexual Behaviour, realizado pelas universidades de Indiana, Chapman e Claremont Graduate (EUA), que não só afirmava que os casais de mulheres homossexuais tinham mais facilidade para chegar ao orgasmo, como o alcançavam graças a dizer claramente do que gostam e a não dar tanta importância à penetração.

Domínio da técnica

Tendo tudo isso bem claro, quando finalmente decidimos tirar a roupa, ou pelo menos parte dela, o que deveríamos saber? Sergio Fosela explica que dominar a anatomia é importante: “Conhecer cada parte do que vamos tocar, como é a reação fisiológica ao estímulo”. Precisamos saber quais áreas podemos ou não morder, quais é melhor esfregar, e para quais devemos contar com a ajuda de um bom lubrificante. Embora não se trate de repetir o que vimos em um livro ou filme. “As técnicas baseadas em movimentos concretos são precisamente as que se sentem mais mecânicas. No entanto, se você souber as reações que a pessoa pode ter, dependendo de quando ou como você a toca, será mais fácil procurar essas sensações prazerosas que levem o parceiro a sentir cada vez mais prazer”, destaca Fosela.

Por outro lado, é importante não repetir a mesma técnica com todos os amantes. Podemos ter nossas armas secretas, mas devemos saber muito bem quando e com quem usá-las. Sobre isso, Iris Martínez insiste que “o que realmente importa é a capacidade que tivermos de nos comunicar. O sexo é um jogo com muitas nuances, não se trata de explorar todas elas, mas de ter confiança para compartilhar aquelas que nos interessam. Não se trata de receber prazer ou dar prazer, mas de combinar as duas partes, compartilhar, mas sem nos esquecer de nós mesmos”.

Neste sentido, Sergio Fosela conclui: “Se você não gosta do que está fazendo, a outra pessoa vai notar. Se você não gosta, a prática sexual se torna mecânica, insípida e pouco apaixonada”. Dessa forma, e voltando à ideia inicial, não se trata de fingir entusiasmo nem de exagerar os gemidos durante o orgasmo. Nem queira ser capaz de memorizar técnicas ou cenas pornográficas. A chave é que um bom amante é aquele que realmente se permite desfrutar a experiência. Embora, é claro, para desfrutar de verdade seja preciso encontrar um parceiro ou uma parceira com quem valha a pena estar.

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