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19 de agosto de 2019
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EUA negociaram secretamente com o número 2 do governo da Venezuela, diz agência

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, exibe uma foto durante programa de TV, ao lado de Diosdado Cabello, em 2018 — Foto: Miraflores Palace/Handout via Reuters

Os Estados Unidos fizeram contatos secretos com um chefe do partido socialista da Venezuela em julho, segundo uma autoridade do governo de Donald Trump.

Diosdado Cabello, considerado o segundo homem mais poderoso da Venezuela, se encontrou no mês passado em Caracas com uma pessoa que tem contatos com a administração de Trump, de acordo com a informação desse chefe à agência Associated Press.

Um segundo encontro tem sido discutido, mas ainda não foi agendado. Aliados próximos de Nicolás Maduro buscam garantias de que não serão perseguidos por abusos e crimes cometidos se cederem às demandas para removê-lo do poder.

A AP não vai divulgar o nome do intermediário dos EUA e nem detalhes do encontro com Cabello por receio de que a pessoa seja repreendida. Esse norte-americano falou sob a condição de anonimato porque não está autorizado a falar sobre os temas discutidos, que são iniciais. Não é claro se as conversas têm a aprovação de Maduro.

Número 2 do governo venezuelano

Cabello, de 56 anos, é uma autoridade poderosa dentro da Venezuela, e sua influência no governo e em forças de segurança aumentaram à medida que Maduro enfraqueceu.

Ele já foi acusado por funcionários dos Estados Unidos de estar por trás de casos de corrupção, tráfico de drogas e ameaças de morte contra um senador norte-americano.

A ideia não é preparar Cabello para assumir ou substituir Maduro, de acordo com o membro do governo de Trump que tem conhecimento sobre o caso. O objetivo é aumentar a pressão feita no regime e contribuir para que as disputas internas dentro da Venezuela se agravem.

Contatos semelhantes existem com outros membros do pequeno círculo de poder da Venezuela, e os EUA ouvem o que é preciso fazer para que eles traiam Maduro e apoiem um plano de transição.

Venezuelanos não comentam

Cabello não comentou e nem respondeu a pedidos de entrevista.

No entanto, um assessor venezuelano disse que os EUA o têm procurado, buscando fazer contato. O assessor rejeitou a ideia de que Cabello esteja, de alguma forma, traindo Maduro.

Ele disse que o dirigente só se encontraria com os americanos se Maduro desse permissão. Isso aconteceria se o presidente acreditasse que as conversas ajudariam a levantar as sanções impostas à Venezuela.

Esse venezuelano falou em condição de anonimato, porque não tem autorização e discutir assuntos políticos.

Conflitos com a oposição não diminuíram

Uma pessoa que tem informações sobre o que aconteceu no encontro de julho afirmou que Cabello aparentava saber o que fazia e chegou ao encontro bem preparado e sabia quais eram as naturezas dos problemas políticos da Venezuela.

Essa pessoa também falou sem se identificar.

Juan Guaidó, que os EUA reconhecem como líder legítimo, não conseguiu atrair os militares e tomar o poder, mas Maduro não tem força suficiente para prender seu rival e nem resgatar a economia do seu país, em meio às sanções impostas pelos EUA.

Neste mês, os EUA impuseram novas sanções, tomaram todos os ativos do governo de Maduro nos EUA e ameaçam punir empresas de outros países que fizerem negócios com a Venezuela.

Conversas organizadas pela Noruega entre a oposição e o governo têm se desenvolvido lentamente, e foram suspensas por Maduro, que acusa Guaidó de celebrar as sanções.

Cabello, os militares venezuelanos e o governo dos EUA não participam dessas conversas.

Garantias para trair

Para trair Maduro e dar seguimento às negociações, alguns conspiradores esperam que os EUA tenham um plano para proteger pessoas do governo venezuelano de futuras ações na Justiça.

Os EUA já disseram que vão oferecer benefícios aos principais dirigentes se eles tomarem ações concretas e significativas para acabar com o poder de Maduro.

Em maio, os EUA suspenderam as sanções contra o antigo chefe de espionagem de Maduro, o general Manuel Cristopher Figuera depois que ele desertou durante um levante, que fracassou.

Como líder da Assembleia Constituinte (pró-Maduro), Cabello tem o poder para destituir o líder, uma posição que é útil em qualquer negociação para uma transição.

Mas, até agora, ele tem gerenciado a instituição, considerada ilegítima pelos EUA.

Não é claro quem iniciou o contato com Cabello. As autoridades dos EUA afirmam que ele conversa pelas costas dos socialistas, apesar de suas demonstrações quase diárias de lealdade e frequentes discursos públicos contra Trump.

Círculo de conspiradores

Um político de oposição dos EUA que foi informado sobre o tema disse que o ministro de Defesa, Vladimir Padrino, e o ministro do Interior, Néstor Reverol, estão entre os que travaram contato indireto com os americanos. Ele salienta que Maduro está cercado de conspiradores, mesmo depois de o levante ter sido derrotado com facilidade.

Cabello é visto como um rival de Maduro, uma pessoa com uma visão econômica mais pragmática e menos alinhado ideologicamente com Cuba.

Ele se sentou à direita de Hugo Chávez quando esse apontou Maduro, que estava à esquerda, seria seu sucessor em sua última aparição pública, antes de morrer de câncer, em 2013.

Pelos relatos, Cabello não estava entre autoridades que tramaram para derrubar Maduro em abril, quando Guaidó e seu mentor, Leopoldo López, apareceram em uma ponte em Caracas cercados por algumas tropas armadas.

Desde o fracasso do levante, militares da reserva têm aumentado a sua influência no governo e nas forças de segurança, com a nomeação de aliados para liderar o exército e o serviço de inteligência Sebin.

Ele também é popular com a base chavista, tendo atravessado o país nos últimos cinco anos com seu programa de TV que é um veículo para atacar a oposição e os EUA.

“Uma saudação fraternal, irmão presidente”, disse Cabello no programa mais recente. Maduro foi chamado como um convidado especial. “Não temos segredo, sem mentiras aqui. Todas as vezes que fazemos algo, nós informamos o povo, para que haja uma consciência clara de que eles podem tomar decisões informadas e ajustar posições.”

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