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6 de outubro de 2018
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Pesquisa avalia como as pessoas percebem a nanotecnologia

Foto: Divulgação

Pequeno, tecnologia, futuro, ciência, inovação e desconhecimento. Essas são as primeiras palavras que vêm à cabeça das pessoas quando pensam em nanotecnologia. Esse foi o resultado de uma pesquisa que envolveu 510 pessoas nos municípios de Seropédica (RJ) e Rio de Janeiro para avaliar a percepção do consumidor sobre essa área do conhecimento e suas aplicações.

As principais aplicações da área citadas pelos entrevistados foram: medicina, alimentação, saúde e informática, nessa sequência.

A intenção de compra dos produtos que empregam nanotecnologia também foi investigada, sendo que a maior média apontada foi para cosméticos.

Essas descobertas podem subsidiar o setor produtivo a utilizar a tecnologia como um diferencial, especialmente para o lançamento de produtos nanotecnológicos, já que essas informações fornecem uma vantagem competitiva, favorecendo a aceitação do consumidor, de acordo com a pesquisa.

Desconhecimento

Em alimentos, a associação mais comum dos entrevistados foi com as frutas, carnes e legumes. Apesar da elevada intenção de compra de alimentos derivados de processos nanotecnológicos (nanoalimentos), grande parte dos consumidores apresentaram dúvidas sobre o assunto, o que pode impactar de maneira significativa na decisão de compra desses produtos.

“Observa-se ainda certa relutância em comprar alimentos produzidos por nanotecnologia devido, principalmente, à maior percepção de riscos associados às novas tecnologias e a um certo grau de neofobia [aversão às novidades] em relação à tecnologia de alimentos, principalmente de parte das mulheres, idosos e pessoas com baixa escolaridade”, relata Raphaela Gonçalves, que desenvolveu a pesquisa em seu mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), orientada pela pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos Rosires Deliza.

Neofobia X Neofilia

Neofobia alimentar envolve a falta de vontade ou mesmo rejeição de alguns consumidores em experimentar alimentos novos ou desconhecidos.

Trata-se de comportamento comum na infância, mas que pode se perpetuar até a vida adulta. Já a neofilia, ao contrário, refere-se ao desejo ou atração pela novidade.

O estudo realizado com consumidores do Rio de Janeiro entre 2017 e 2018 demonstrou, contudo, certo equilíbrio entre a rejeição e o entusiasmo dos participantes em relação à nanotecnologia, já que 70% dos entrevistados demonstraram uma atitude neutra para essa questão, sendo os outros 15% neófilicos e 15% neofóbicos (leia o quadro acima).

“Os consumidores demonstraram-se curiosos e interessados em nanotecnologia. Por essa razão, é importante informá-los previamente sobre os benefícios e os possíveis riscos para inibir qualquer medo e má impressão e, principalmente, para que não haja a rejeição do novo produto lançado no mercado”, afirma a pesquisadora da Embrapa.

Os resultados da pesquisa indicam ainda que campanhas que incorporem melhoria, conveniência, naturalidade, sabor e benefícios para o consumidor podem ter impacto positivo nos indivíduos e em suas escolhas alimentares, inclusive de produtos inovadores, particularmente quando a mensagem é concisa e de fonte confiável, conforme conta a pesquisadora.

Especialmente para os produtos de apelo direto como alimentos e cosméticos, normalmente há uma certa dicotomia entre a percepção de benefício versus o risco para o consumidor.

“Uma percepção supervalorizada pode levar o público a criar expectativas irrealistas sobre as tecnologias, que levam à frustração.

No outro extremo, há grupos de opinião que acreditam em um ’apocalipse nano‘, como se as novas tecnologias pudessem incluir riscos inimagináveis ou ameaças não previstas.

Essa perspectiva é de certa forma comum a todas novas tecnologias”, avalia Cauê Ribeiro, pesquisador da Embrapa Instrumentação e líder da Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio (AgroNano).

“Nossa preocupação com a percepção do consumidor é que seja construída uma expectativa realista do que a tecnologia pode oferecer e de quais os cuidados devem ser tomados”, pondera o cientista.

Associação de palavras

O estudo realizado utilizou a metodologia de associação de palavras. Os 510 participantes do estudo mencionaram 1.858 diferentes termos para nanotecnologia, que foram agrupados em 18 dimensões e 14 categorias.

“Isso sugere que existem muitos fatores inter-relacionados que podem afetar o comportamento do consumidor em relação à nanotecnologia”, avalia Raphaela Gonçalves.

O estudo quantitativo foi então elaborado a partir dos resultados da associação de palavras, em que as mais citadas serviram de base para a formulação de 25 afirmações avaliadas por 403 indivíduos em uma pesquisa quantitativa online, utilizando escalas de sete pontos, variando de um (discordo totalmente) a sete (concordo totalmente).

“A maioria dos consumidores entrevistados fez associações coerentes, em que a maioria das palavras citadas descreveu características reais e positivas sobre nanotecnologia, como pequeno, tecnologia, futuro, ciência, inovação e desconhecimento.

Em relação ao gênero, os homens associaram o termo mais à tecnologia, enquanto as mulheres, à alimentação e à estética”, conta Deliza.

Afinal, o que é nanotecnologia?

A nanotecnologia é considerada por muitos autores como a base para a próxima revolução industrial. A manipulação na escala nanométrica (um nanômetro é um milímetro dividido por um milhão) pode modificar propriedades como cor, condutividade, reatividade, ponto de fusão, entre outras, criando novas aplicações para os materiais em distintos setores.

No Brasil, a partir de 2007, a nanotecnologia foi identificada como área estratégica para o governo brasileiro por seu potencial de inovação, crescimento de mercado e benefícios associados à sua utilização.

De acordo com os pesquisadores da Embrapa, a percepção pública será crucial para a realização desses avanços tecnológicos.

É crescente o número de produtos à base de nanomateriais, seja em desenvolvimento ou já comercializados, tais como eletrônicos, fármacos, têxteis, cosméticos.

A nonotecnologia também está cada vez mais presente no setor de alimentos e mais próxima do consumidor.

Um dos exemplos de maior sucesso da aplicação de nanotecnologia é o smartphone, que possui inúmeros componentes em escala nanométrica em sua montagem.

Em recente pesquisa realizada pela BCC Research (2014), o mercado global de produtos nanotecnológicos foi avaliado em US$ 22,9 bilhões em 2013, aumentando para cerca de US$ 26 bilhões em 2014.

Estima-se que o mercado de produtos nanotecnológicos alcance U$ 64,2 bilhões em 2019, com taxa de crescimento de 19,8% ao ano desde 2014.

A Rede AgroNano

Há mais de dez anos, a Embrapa mantém a Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio (AgroNano) com o objetivo de construir as bases para o conhecimento científico e incorporação das nanotecnologias às atividades da Embrapa, agregando parceiros de elevada competência.

Hoje, a Rede AgroNano conta com mais de 150 pesquisadores das cinco regiões brasileiras nas áreas de física, química, bioquímica, biologia, agronomia, zootecnia e engenharias.

Esses especialistas atuam em 17 Unidades da Embrapa e 40 diferentes universidades. O grupo permitiu que a Rede incorporasse novos horizontes como a avaliação de impactos das nanotecnologias aplicadas ao agronegócio e a incorporação sistemática de estratégias de transferência de tecnologia para a área.

A pesquisa integrada resultou em cerca de 600 artigos publicados em periódicos internacionais, em produtos como sensores de qualidade de alimentos, filmes de revestimento de frutas e embalagens inteligentes.

Entre os produtos para o setor privado, já foram transferidas formulações de fertilizantes, tecnologia de revestimento de ovos e filmes finos comestíveis.

“A perspectiva de aplicação da nanotecnologia na agricultura tem sido positiva, uma vez que as empresas de vários setores relacionados como alimentos, fertilizantes, agroquímicos e produtos farmacêuticos começam efetivamente a investir em pesquisa em nanotecnologia.

O desafio é continuar o investimento aqui no Brasil, especialmente na formação dos pesquisadores e na aquisição de equipamentos de ponta”, conta Cauê Ribeiro, pesquisador da Embrapa Instrumentação e líder da Rede AgroNano.

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